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Quanto à posse atual da terra da Comunidade Awas Tingni, a testemunha considera
que primeiro é necessário falar da história. A Comunidade tem se identificado como
uma comunidade Mayagna, mas pouco a pouco, com base no crescimento
demográfico e também na comunicação contínua que tem tido com pessoas de
outras zonas, foi identificando a si mesma como uma comunidade independente, ao
redor de seus líderes espirituais chamados caciques. Assim, foi-se formando e
fortalecendo seu sentido de comunidade, com seus próprios limites e fronteiras.
Há duas comunidades Miskitas no território de Awas Tingni, segundo demonstra o
mapa. Esperanza é uma e foi formada em duas etapas, a saber: em 1971, depois da
guerra entre Honduras e Nicarágua, e em 1972, depois do furacão desse ano,
quando chegaram outras comunidades. Uma das cinco comunidades que se
estabeleceram no território se denomina de Tasba Raya, Esperanza, e está ao norte
do Rio Wawa. Eles chegaram aí sob as ordens do Estado nessa época e foram aceitos
pela Comunidade Awas Tingni. A outra é chamada Yapú Muscana, a qual mais que
uma comunidade é nada mais que um refúgio; foi uma família miskita que se havia
assentado independentemente no lado sul. Não há nenhuma evidência de que essas
comunidades estivessem aí antes da Comunidade Awas Tingni; pelo contrário, um
membro de Francia Sirpi, que é a comunidade limítrofe com Esperanza, afirmou à
testemunha que Awas Tingni chegou antes.
Atualmente, há alguns conflitos com as comunidades limítrofes à Comunidade,
principalmente devido à presença da companhia SOLCARSA, com a qual falta
entendimento, porque membros de comunidades vizinhas querem apoderar-se de
suas terras, pensando que quem for o dono da terra será o beneficiado com as obras
que se realizem.
Foi construída uma história e uma posse ancestral com indígenas de diferentes
etnias. O sentido de fronteiras da Comunidade fortaleceu-se com a interação vicinal.
A única prova que pode ser utilizada para determinar a existência da Comunidade
antes de 1990 é a tradição oral. Há investigações sobre a história da Comunidade, e
também foram consultados alguns especialistas da Universidade de Harvard, nos
Estados Unidos, e da América Central, e não foram encontrados dados que
contradissessem a tradição oral na qual se baseia seu estudo.
As formas de exploração do solo da área da Comunidade Awas Tingni são baseadas
em um sistema comunitário, dentro do qual há usufruto por parte dos indivíduos, o
que significa que ninguém pode vender nem alugar esse território a pessoas de fora
da Comunidade. Entretanto, dentro da Comunidade, certos indivíduos utilizam um
lote, uma área determinada, ano após ano. Assim, a Comunidade respeita o direito
de usufruto, mas não permite o abuso desse direito. Este direito de usufruto é
adquirido em muitos casos por herança, passando de geração em geração, mas
principalmente é concedido por um consenso da Comunidade. Também, pode ser
transferido de uma família à outra. Quem se beneficia desse usufruto tem a
possibilidade de excluir do uso dessa terra, do aproveitamento desses recursos, os
demais membros da Comunidade.
As colinas localizadas no território da Comunidade são muito importantes. Dentro
delas vivem os “espíritos do monte”, chefes do monte, que em Mayagna diz-se
“Asangpas Muigeni”, que são os que controlam os animais ao redor dessa região.
Para aproveitar esses animais, é preciso ter uma relação especial com os espíritos.
Em muitas oportunidades é o cacique, que é uma espécie de “xamã” chamado