Além disso, o presente caso parece revelar que a própria percepção do passar do tempo
pode não ser a mesma para as mulheres e os homens.
60.
O presente Caso do Presídio Castro Castro revela uma aproximação entre o tempo
psicológico e o tempo biológico, evidenciado por algo sagrado que foi, no presente caso,
violentado: o projeto bem como a vivência da maternidade. A maternidade, que deve ser
cercada de cuidados e respeito e reconhecimento, ao longo de toda a vida e no pós-vida,
foi violentada no presente caso de forma brutal e em escala verdadeiramente
intertemporal.
61.
Houve, de início, a extrema violência pré-natal, evidenciada nas brutalidades a
que foram submetidas as mulheres grávidas no Presídio Castro Castro, descritas na
presente Sentença (pars. 197.57, 292 e 298). Quais foram as sequelas desse quadro de
extrema violência na mente – ou no inconsciente – das crianças nascidas do ventre
materno tão desrespeitado e violentado, ainda antes de seu nascimento?
62.
Houve, em seguida, a extrema violência na própria vivência da maternidade,
frente à brutalidade cometida contra os filhos. Na supracitada audiência pública perante
esta Corte no presente Caso do Presídio Castro Castro, descreveu-a, com comovente
eloquência, uma mãe (senhora Julia Peña Castillo), testemunha no caso:
“(...) O dia 6 de junho do ano de 1992, quem fala é mãe de muitos filhos (...), (...) a intuição
de mãe foi mais que da casa, que de fazer a comida, deixei tudo (...). Quando cheguei lá [no
Castro] havia mais que a imprensa, (...) havia muitos militares, umas caminhonetas
entravam, outras saíam, (...) aí comecei a gritar, (...) gritava e dizia: - 'o que estão fazendo,
meus filhos, meus filhos! Foi a primeira coisa que surgiram em minhas palavras, meus filhos.
(...)
(...) Ali, realmente nós, muitas mães, nos abraçamos, nos abraçamos muito forte, porque os
estrondos do canhão eram algo que chegava até nossos corações. Cada estrondo era uma dor
muito forte, porque se viam os estilhaços do pavilhão que voavam. (...) Uma das mães estava
do meu lado, abracei-a e me disse 'minha filha está viva, minha filha está viva' (...). Fiquei
animada ao ouvi-la. Mais tarde a coisa continuava pior, já não se escutavam vozes, só se
escutavam muitos tiros que pareciam de metralhadora ou de uma arma longa que
escutávamos (...), soava e logo parava, e logo de outro lado outra vez. (...) Continuavam os
tiroteios. Pernoitamos aí, não sabíamos nada, quem eram os mortos, quem eram os feridos,
quantos mortos eram, nada porque não nos davam informação. Inclusive os policiais que
saíam (...). Não nos deram nenhuma espécie de informação (...). (...) Não lhes interessava”. 51
63.
Em ainda outra dimensão, muitas das mulheres sobreviventes do bombardeio do
Presídio Castro Castro – como se salientou neste Voto Fundamentado (par. 13, supra) –
não puderam ser mães ainda, pois, como se ressaltou na audiência pública no cas
d'espèce perante esta Corte, desde então consumiram todo o seu tempo existencial em
busca da verdade e da justiça. Aqui estamos diante da maternidade denegada ou
postergada (um dano ao projeto de vida), por força das cruéis circunstâncias, conforme
denunciou com toda pertinência a interveniente comum dos representantes das vítimas e
seus familiares (supra).
64.
E, na dimensão do pós-vida, também foi afetada gravemente, no caso concreto, a
vivência da maternidade, conforme mostra a busca desesperada, nos necrotérios, dos
familiares das vítimas, dos restos mortais dos internos mortos no ataque armado à Prisão
de Castro Castro, frente à indiferença das autoridades estatais. Como a Corte relata na
presente Sentença,
51
CtIADH, Transcrição da Audiência Pública..., op. cit. n. (9) supra, p. 41 a 43 (circulação interna).