seja, a Convenção Americana –, é preciso considerar o alcance e significado – ou os
alcances e significados – que nos países da América tem o termo “propriedade”.
5.
É relevante mencionar aqui que a Corte Interamericana de Direitos Humanos,
em seu Parecer Consultivo OC-16/99 (O Direito à Informação sobre a Assistência
Consular no Âmbito das Garantias do Devido Processo Legal) fez ver que “ao dar
interpretação a um tratado não apenas se levam em conta os acordos e instrumentos
formalmente relacionados com este (...), mas também o sistema dentro do qual se
inscreve�� (par. 113), e para esse efeito citou a Corte Internacional de Justiça quando
esta sustenta que “um instrumento internacional deve ser interpretado e aplicado no
âmbito do conjunto do sistema jurídico vigente no momento em que se pratica a
interpretação” (Legal Consequences for States of the Continued Presence of South
Africa in Namibia (South West Africa), notwithstanding Security Council Resolution 276
(1970), Advisory Opinion, I.C.J. Reports 1971, pág. 16 ad 31). Assim o fez a Corte
Interamericana ao proferir Sentença no presente caso.
6.
Diversos instrumentos internacionais concernentes à vida, cultura e direitos dos
indígenas invocam o reconhecimento explícito de suas instituições jurídicas e, entre
elas, das formas de propriedade que prevaleceram e prevalecem entre estes. Da
revisão destes textos, à qual concorre uma ampla corrente de convicções, experiências
e exigências, observa-se a legitimidade que têm e o respeito que merecem estes
sistemas de posse da terra, bem como a necessidade que existe, em tal virtude, de
disponibilizar seu reconhecimento e defesa. No âmbito dos direitos individuais dos
indígenas e coletivos de seus povos se integra, por fim, com as estipulações dos
instrumentos gerais sobre direitos humanos aplicáveis a todas as pessoas, ilustradas
com os dados que constam nesses outros catálogos específicos, sobre os quais existe
um consenso cada vez mais amplo e resolvido. Estes dados constituem elementos
úteis – mais ainda, indispensáveis – para a interpretação das normas convencionais
que deve aplicar a Corte.
7.
Nesta ordem de ideias, a Convenção nº 169 sobre Povos Indígenas e Tribais em
Países Independentes, adotada pela 76ª Conferência Internacional do Trabalho
(Genebra, 1989), animada pela ideia da existência perdurável dos povos indígenas e
tribais – com respeito à sua identidade e às instituições que são produto e resguardo
desta -, sustentou que “os governos deverão respeitar a importância especial que
possui, para as culturas e valores espirituais dos povos interessados, a sua relação
com as terras ou territórios, ou com ambos, segundo os casos, que eles ocupam ou
utilizam de alguma maneira e, particularmente, os aspectos coletivos dessa relação”
(artigo 13.1); e afirmou também: “Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os
direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam”
(artigo 14.1).
8.
O Projeto de Declaração sobre Discriminação contra as Populações Indígenas,
emanado da Subcomissão de Prevenção de Discriminações e Proteção às Minorias da
Comissão de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas
(E/CN.4/Sub.2/1994/2/Add.1, 20 de abril de 1994) se refere claramente a estas
mesmas questões e contribui a fixar, dessa maneira, o critério da comunidade jurídica
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