jovens das tradições e ritos culturais, bem como na perpetuação do conhecimento espiritual dos
sábios. As detonações de explosivos destruíram parte das matas, fontes de água, covas, rios
subterrâneos e sítios sagrados, e causaram a migração dos animais. Quanto à área em que
permanecem os explosivos, o Yachak Sabino Gualinga declarou na audiência que:
“nesse setor já se foi a metade dos donos que preservavam o ecossistema […]. Eles são os que
sustentam a selva, a mata. Se se destrói, […] também, derrubam-se as montanhas. Nós vivemos na
bacia do Bobonaza, e isso nos afeta totalmente. Todos os que querem provocar danos não sabem o
que estão fazendo. Nós, sim, o sabemos, porque nós vemos isso”.
219. Dada a importância que têm os sítios de valor simbólico para a identidade cultural do
Povo Sarayaku e sua cosmovisão, como sujeito coletivo, vários dos depoimentos e perícias
apresentados durante o processo mostram o forte laço que existe entre os elementos da
natureza e da cultura, por um lado, e as dimensões do ser de cada integrante do Povo, por outro.
O exposto denota também os profundos danos nas relações sociais e espirituais que os
integrantes da comunidade podem sofrer com os diferentes elementos da natureza que os
rodeia quando são destruídos ou alvo de descaso.
220. A Corte considera que a falta de consulta ao Povo Sarayaku afetou sua identidade cultural
e, portanto, não há dúvida de que a intervenção em seu patrimônio cultural, e sua destruição,
implica uma falta grave a esse respeito, em virtude de sua identidade social e cultural, seus
costumes, tradições, cosmovisão e seu modo de viver, provocando, naturalmente, grande
preocupação, tristeza e sofrimento entre eles.
B.7
Dever de adotar disposições de direito interno
221. A Corte recorda que o artigo 2 da Convenção obriga os Estados Parte a adotar, de acordo
com seus procedimentos constitucionais e as disposições da Convenção, as medidas legislativas,
ou de outra natureza que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades
protegidos pela Convenção,293 ou seja, os Estados não só têm a obrigação positiva de adotar as
medidas legislativas necessárias para garantir o exercício dos direitos nela consagrados, mas
também devem evitar promulgar leis que impeçam o livre exercício desses direitos, e evitar que
se suprimam ou modifiquem as leis que os protegem.294 Definitivamente, “o Estado tem o dever
de adotar as medidas necessárias para tornar efetivo o exercício dos direitos e liberdades
reconhecidos na Convenção”.295
222. Embora, nos termos referidos, o Estado tivesse a obrigação de consultar o Povo
Sarayaku, não consta à Corte que até 9 de dezembro de 2002 o Estado dispusesse de um
Regulamento minucioso sobre consulta prévia, no qual estivessem estabelecidas claramente,
inter alia, o momento em que se deve fazer a consulta, o objetivo dessa consulta, os sujeitos da
consulta, as fases do desenvolvimento de atividades nas quais se procede ao processo de
consulta prévia de execução, a formalização de resoluções na consulta, ou as compensações
pelos prejuízos socioambientais causados na execução de atividades de extração de recursos
naturais, em especial, hidrocarboríferos. Em todo caso, esse Regulamento de Consulta de
Atividades Hidrocarboríferas, de 2002, tampouco teve impacto neste caso e foi revogado
posteriormente, em abril de 2008, pelo Regulamento de
Cf. Caso Genie Lacayo Vs. Nicarágua. Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 29 de janeiro de 1997.
Série C Nº 30, par. 51; e Caso Chocrón Chocrón Vs. Venezuela. Exceção Preliminar, Mérito, Reparações e Custas.
Sentença de 1º de julho de 2011. Série C Nº 227, par. 140.
293
Cf. Caso Chocrón Chocrón Vs. Venezuela, par. 140; e Caso Castillo Petruzzi e outros Vs. Peru. Mérito,
Reparações e Custas. Sentença de 30 de maio de 1999. Série C Nº 52, par. 207.
294
Caso do Massacre de Las Dos Erres Vs. Guatemala. Exceção Preliminar, Mérito, Reparações e Custas.
Sentença de 24 de novembro de 2009. Série C Nº 211, par. 240.
295
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