9 36. A CIDH também considera relevante mencionar uma investigação jornalística sobre as práticas da 19 20 Polícia Militar de São Paulo denominada Rota 66, publicada no início dos anos 90 pelo jornalista Caco Barcellos. Essa pesquisa utilizou a metodologia de examinar todas as mortes resultantes de supostos tiroteios com a Polícia 21 22 Militar em São Paulo, de 1970 até 1992. Ao analisar recortes de jornais de 8.000 edições do jornal Notícias Populares, Barcellos pôde identificar 3.216 episódios de supostos tiroteios envolvendo a Polícia Militar. Nenhum 23 “adversário” civil sobreviveu em 3.188 desses incidentes. Esta pesquisa ademais enfocou-se na identificação das vítimas. Barcellos então recorreu aos arquivos do Instituto de Medicina Legal (“IML”), aonde os corpos eram levados para a confecção dos autos de exame cadavérico. Ele também entrevistou parentes e amigos das vítimas. 37. No IML, só haviam registros das vítimas fatais mortas na cidade de São Paulo capital, mas só esse 24 número perfazia 4.179 vítimas da força letal da polícia. Seiscentos e oitenta vítimas identificadas eram crianças. De acordo com várias fontes, incluso as estatísticas oficiais da Polícia Militar, que não incluem os anos 70 pois as autoridades ainda recusam-se a fazer públicas as cifras dessa década, Barcellos identificou e estabeleceu o perfil de 60% de um estimado total de 7.500 a 8.000 vítimas da Polícia Militar de São Paulo em vinte e dois anos. Uma prática especialmente importante que foi identificada em Rota 66 foi a manipulação da cena do crime pela polícia; já que 3.546 “adversários” foram removidos do local em que foram baleados para hospitais devido a um suposto 25 intento humanitário de salvar suas vidas. No entanto, o que os hospitais receberam foram 3.546 cadáveres. 38. Após identificar os assassinos e as vítimas, a pesquisa de Barcellos examinou os processos nos tribunais, a fim de descobrir como o sistema de justiça tinha tratado aqueles casos com tantos indícios de uso excessivo da força pela polícia. De acordo com suas conclusões, a investigação de crimes praticados pela polícia é 26 “precária e tendenciosa.” Além disso, o levantamento mostrou que os assassinos em série (serial killers) da polícia são encorajados por seus comandantes a matar suspeitos criminosos. Os mesmos policiais responsáveis por várias mortes de civis estavam entre os mais elogiados nas suas fichas pessoais, e recebiam a maioria das 27 condecorações por bravura. 39. Outra conclusão interessante de Rota 66 foi que, contrariamente à frequente justificativa apresentada pela polícia para o aumento da violência policial, não há nenhuma relação direta entre o aumento da violência policial e uma suposta efetividade da “guerra contra os bandidos.” De 1970 a 1980, por exemplo, enquanto que o número de homicídios aproximadamente dobrou em São Paulo (de 666 para 1.424), as mortes de civis pela Polícia Militar aumentou de 28 para 280. Essa tendência ficou ainda mais acentuada de 1981 a 1991. 19 ROTA é a sigla correspondente a Rotas Ostensivas Tobias Aguiar, um batalhão especial da Polícia Militar de São Paulo criado durante a ditadura e que permanece em ação até o presente. 20 Caco BARCELLOS, Rota 66 (12ª ed., Editora Globo 1992). A CIDH referiu-se anteriormente ao jornalista Barcellos, em CIDH. Relatório No. 34/00, Caso 11.291, Carandiru (Brasil), 13 de abril de 2000, para. 70 (“Também foi perseguido o jornalista Caco Barcellos, que anteriormente investigara a conduta policial, havendo sido suas comunicações interceptadas, e ele ameaçado a ponto de ter de deixar o país”). A pesquisa de Barcellos em Rota 66 retrata e analisa vários casos, todos os quais foram escolhidos por seu caráter extremamente violento, a fim de revelar provas que claramente indicam o uso excessivo da força pela polícia e a resultante impunidade. Esse trabalho de investigação detalhado realiza análises de números e estatísticas, mas também vai mais além para descobrir quem eram as vítimas da violência policial e em que circunstâncias morreram, de acordo com o descrito pelas testemunhas civis. Além disso, mostra um quadro deprimente da crueldade e da frieza da violência policial, vivamente descrevendo não só as execuções, mas como a polícia consegue ocultar e forjar provas, ameaçar as testemunhas e sair livre mesmo depois de cometer crimes tremendamente repulsíveis. 21 Exatamente a partir 9 de abril de 1970, quando a Polícia Militar de São Paulo foi criada. 22 Abril, compreendendo portanto vinte e dois anos. 23 Caco BARCELLOS, Rota 66, pg. 118. 24 Caco BARCELLOS, Rota 66, pg. 129. 25 Caco BARCELLOS, Rota 66, pgs. 131-132. 26 Caco BARCELLOS, Rota 66, pg. 141. 27 Ver, inter alia, os fatos descritos a respeito do Soldado Roberto Lopes Martínez em Caco BARCELLOS, Rota 66, pg. 147.

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