118. A Comissão observa que em abril de 2019 membros da Câmara dos Deputados manifestaram
preocupação pela possível afetação das comunidades quilombolas em face de tal acordo. O Ministério da
Defesa respondeu o seguinte:
[O acordo] não trata de questões fundiárias [...]. Contudo, caso a ratificação do AST pelo Congresso
promova, como se espera, um incremento nos negócios e isso leve o Governo Brasileiro a prosseguir com
a consolidação do CEA, a população quilombola, que ora habita a área a ser futuramente utilizada pelo
Centro, será assentada em outra área da mesma região. Para tanto, serão observadas as previsões da
Convenção 169 da OIT [Organização Internacional do Trabalho], incluindo a consulta prévia e informada
à população quilombola afetada.78
119. Diante de tal comunicado, em 30 de setembro de 2019 o Ministério Público Federal emitiu uma nota
técnica por meio da qual afirma que as comunidades de Alcântara correm o risco “de turbação na posse dos
territórios que ocupam tradicionalmente, ou mesmo de remoção forçada”. O Estado também foi instado a
consultar os quilombolas sobre o acordo, em conformidade com os parâmetros da Convenção 169 da OIT79.
120. A Comissão registra a informação oferecida por Sérgio Antonio Frazão Araújo, ex-funcionário do CLA e
atual funcionário do Departamento de Assuntos Internacionais e Cooperação do Ministério da Ciência e
Tecnologia do Brasil, na qualidade de testemunha do Estado. O senhor Araújo manifestou o seguinte:
[O] Acordo de Salvaguarda não diz respeito a nenhuma ocupação próxima agora. Não vai ser transferido
ninguém, mudado ninguém, então não há porque se falar em restrição ao acesso ao mar nesse momento.
O Acordo é só um acordo tecnológico, de proteção de tecnologia, só isso.
121. A CIDH observa que, conforme o assinalado pelo Estado em novembro de 2019, o referido acordo estava
pendente de aprovação pelo Congresso Nacional. Informações posteriores de conhecimento público e de
caráter oficial indicam que, no presente momento, o acordo já se encontra aprovado pelo Congresso Nacional,
promulgado pela Presidência da República do Brasil e em vigor80.
122. Com relação à situação atual das comunidades quilombolas, a CIDH registra a declaração realizada pela
funcionária do Ministério Público Federal, Deborah Macedo Duprat de Britto Pereira, na audiência pública de
2019 perante a CIDH. A esse respeito, a senhora Duprat sustentou o seguinte:
- Os quilombolas temem passar pelo “mesmo processo de escassez de alimentos” do final dos anos 1990,
“pois mais uma vez o risco de remoção é das comunidades que estão na beira da praia”.
- Há indefinição judicial e falta de conclusão do processo administrativo de demarcação da terra
quilombola.
- O Estado não escutou as comunidades de Alcântara como devia e não cumpriu a Convenção 169 da OIT
ao entabular negociações com os Estados Unidos e submeter o tratado à aprovação do Poder Legislativo
sem consultar as comunidades.
123. A Comissão também observa que, conforme foi assinalado pela parte peticionária na audiência pública
de 2019, as comunidades reassentadas em agrovilas continuam em uma situação extremamente precária.
Recordou-se que grande parte do orçamento previsto para políticas que beneficiariam as comunidades
quilombolas, assim como para a regularização da propriedade da terra e para o desenvolvimento local, não
foi executado. Explicou que as limitações e restrições impostas, assim como as situações de ameaças e
agressões, geraram impacto na organização e sobrevivência de todas as comunidades quilombolas de
Alcântara. Acrescentou-se que as comunidades se encontram em uma situação de medo, angústia e incerteza
sobre o seu futuro pois não conhecem as consequências que podem ser geradas pelos acordos que o Estado
brasileiro continua assinando sobre o funcionamento do CLA.
Ministério Público Federal. Nota Técnica Nº 03/2019-6CCR. 30 de setembro de 2019.
Ministério Público Federal. Nota Técnica Nº 03/2019-6CCR. 30 de setembro de 2019.
80 Decreto No. 10.220, de 5 de fevereiro de 2020; Ministério das Relações Exteriores, “Nota 313”, 19 de dezembro de 2019; Agência
Brasil, “Senado aprova acordo sobre uso da base espacial de Alcântara pelos EUA”, 12 de novembro de 2019.
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