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Ditelian, quem pode manter essa relação com os espíritos. Então, a presença de
animais e a possibilidade de serem aproveitados mediante a caça está baseada na
cosmovisão e tem muito a ver com as fronteiras, porque, segundo eles, esses amos
do monte são donos dos animais, especialmente do porco da montanha, que se
desloca em manadas ao redor das montanhas. Assim, há um vínculo muito forte com
o entorno, com estes lugares sagrados, com os espíritos que neles vivem e os irmãos
membros da Comunidade.
Há dois tipos de lugares sagrados nas zonas fronteiriças: cemitérios, que são
visitados atualmente com frequência pelos membros da Comunidade, localizados ao
longo do Rio Wawa; são assentamentos velhos que os visitam quando vão caçar. Até
certo ponto, ir à caça é um ato espiritual e tem muito a ver com o território que eles
aproveitam. O segundo tipo de zonas sagradas são as colinas.
d.
Perícia de Rodolfo Stavenhagen Gruenbaum, antropólogo e
sociólogo
Conhece a situação dos povos indígenas da Costa Atlântica da Nicarágua por
referência, não diretamente. O conhecimento de que dispõe advém da literatura
etnográfica e antropológica sobre a Nicarágua e de relatórios feitos por especialistas,
referentes à situação dos povos da Costa Atlântica da Nicarágua, povos que têm
estado tradicionalmente marginalizados do poder central e vinculados a alguns
interesses de cunho econômico ou internacional, mas muito conscientes de sua
identidade cultural, de sua auto-percepção social, por serem grupos sociais com uma
continuidade histórica, vinculação com a terra, atividades de tipo econômicas e
formas de organização próprias que os têm distinguido do resto da população da
Nicarágua.
Os povos indígenas em diferentes países de nosso continente enfrentam problemas
de discriminação. Há alguns anos, a situação vem se modificando em razão de
mudanças legislativas e constitucionais, da opinião pública e das reivindicações e
demandas apresentadas nos âmbitos nacional e internacional pelas organizações
indígenas.
Os povos indígenas são definidos como aqueles grupos sociais e humanos,
identificados em termos culturais e que mantêm uma continuidade histórica com
seus antepassados, desde a época anterior à chegada a este continente dos
primeiros europeus. Esta continuidade histórica adverte-se nas formas de
organização, na cultura própria, na autoidentificação que estes povos fazem de si
mesmos e no manejo de um idioma cujas origens são pré-hispânicas. Estes povos
são conhecidos em nossos países porque mantêm formas de vida e de cultura que os
distinguem do resto da sociedade, e têm estado subordinados e marginalizados
tradicionalmente por estruturas econômicas, políticas e sociais discriminatórias, que
praticamente os têm mantido em condição de cidadania de segunda classe, apesar
de que nas legislações, formalmente, os indígenas têm os mesmos direitos dos não
indígenas. Entretanto, na realidade, esta cidadania é como imaginária, porque
seguem sofrendo de formas estruturais de discriminação, de exclusão social, de
marginalização.
Há muitos anos, o Estado nicaraguense tem realizado políticas de incorporação e
integração dessas populações da Costa Atlântica ao Estado Nacional, com alguns
resultados positivos quanto à integração nacional do país, mas que também têm
produzido tensões entre a população indígena desta zona com o resto da sociedade,