-44Esteve presa no segundo andar do pavilhão 1A no Presídio Castro Castro, junto com
aproximadamente outras 100 internas. Nos pavilhões 1A (mulheres) e 4B (homens) do
Presídio Castro Castro se encontravam, unicamente, os internos acusados de terrorismo.
Não está certa se nos demais pavilhões havia alguém nas mesmas circunstâncias.
Em 6 de maio de 1992, dia de visitas, aproximadamente às 4h, quando a testemunha se
encontrava descansando, começaram as explosões e disparos dentro do presídio. Os muros
do pavilhão foram derrubados, e foram lançadas bombas de gás lacrimogêneo e outras mais
potentes. Para proteger-se dos gases e poder respirar, as internas tiveram de utilizar lenços
com vinagre e com a própria urina, além de colocar o rosto no buraco que utilizavam como
banheiro porque era o único lugar por onde entrava ar. Naquele dia pela manhã morreu o
senhor Juan Bardales. Depois das mortes começou a surgir um “clima” de desespero entre
as mulheres, que sentiam que iam morrer, e que seus familiares que permaneciam do lado
de fora do presídio iam presenciar. Se se tivesse tratado de uma transferência, ela não se
teria oposto, já que não era agradável viver com homens no Presídio Castro Castro.
Por causa do “bombardeio […] pelo ar” o teto do quarto andar foi perfurado, e por aí os
militares entraram no pavilhão ferindo algumas internas, entre as quais reconheceu María
Villegas. Tendo em vista que o pavilhão 1A seria destruído, as internas, entre as quais se
encontravam quatro grávidas, tiveram de “arrastar-se” pelo chão passando por cima de
cadáveres e protegendo-se das balas disparadas pelos francoatiradores, saltando do
segundo andar para o porão, onde ficava o duto que se encontrava cheio de ratos,
dirigindo-se ao pavilhão 4B. Outras internas não tiveram a mesma sorte, entre as quais
reconheceu a senhora Vilma (não se lembra do sobrenome), de 60 anos de idade, que por
não conseguir saltar foi alcançada pelos tiros. A intensidade do ataque não diminuiu em
nenhum momento. Um grupo de delegados dos internos se encarregou de tentar dialogar
para que não lhes causassem danos na transferência.
No sábado, os internos se encontravam amontoados. Os ataques se intensificaram e
continuaram os bombardeios e as explosões. A testemunha descreve os efeitos das bombas
como “já não se podia nem respirar, o corpo parecia arder, o corpo parecia querer sair de
si”. Quando foi aberta a porta do pavilhão, alguns internos começaram a sair e todos foram
“fuzilados”, entre os quais reconhece o senhor Marco Azaña. A testemunha decidiu sair,
tendo em vista de que o pavilhão ia desmoronar. Ela pensou “se eu saio ao menos minha
mãe poderá enterrar-me e reconhecer meu corpo”. Quando saiu para a área conhecida
como “galinheiro” foi atingida por um fragmento que lhe provocou um ferimento na perna
direita. Nessa zona também viu muitas pessoas mortas e feridas, entre as quais reconheceu
a senhora Violeta (não se lembra do sobrenome) que estava morta, Marco Azaña e Elvia
Sanabria, que não sabe se estavam mortos ou feridos, e Miriam Rodríguez e Luis Ángel, que
estavam feridos. Enquanto se dirigia à área conhecida como “tópico”, olhou para o teto do
presídio e viu muitos militares vestidos como “ranger”, que agrediram e atacaram
verbalmente os internos. A testemunha parou de andar, e naquele momento começaram a
disparar contra ela. Foi ferida no pescoço, no baço e no seio direito. Quando os militares se
deram conta de que ela ainda estava viva, dispararam contra suas costas, após o que ficou
inconsciente. Quando recuperou os sentidos se encontrava na zona do presídio “onde
revistam as visitas”, junto com outros feridos. Ali foi ajudada por um guarda do presídio,
que lhe deu água.
Posteriormente, militares encapuzados a levantaram pelos pés e mãos e a “jogaram” num
caminhão junto com outros feridos. Quando ia nesse caminhão saindo do presídio conseguiu
ouvir as vozes dos familiares que gritavam protestando contra o ataque, o que “lhe deu
força” para agarrar-se à vida. Foram ameaçados pelos militares, que diziam que iam matálos, ou “jogá-los do caminhão” a caminho do hospital, e um dos militares chutou seu rosto.