-45- No hospital não recebeu o atendimento médico necessário; não tomou banho, e por isso as moscas pousavam em seu corpo, que estava cheio de sangue; ficou sem poder comer, já que por causa dos ferimentos não podia comer sem auxílio, e ninguém a ajudava; ficou nua na frente dos militares que a vigiavam e apontavam-lhe permanentemente os fuzis; e não permitiam que usasse o banheiro sozinha ou que recebesse visitas dos familiares. Todo esse tempo recebeu maus-tratos por parte dos militares. No hospital morreram, por falta de atendimento, Consuelo, Noemí (não lembra os sobrenomes) e María Villegas. Posteriormente, foi transferida para a prisão de Chorrillos, descalça e vestida com uma bata que a Cruz Vermelha lhe havia doado. Nessa cadeia as internas ficaram amontoadas, em celas sem as condições normais de higiene, sem água, com má alimentação, e não lhes permitiam realizar atividades como ler, trabalhar ou sair ao pátio. Aproximadamente cinco meses depois dos ataques ao presídio puderam receber visita; entretanto, não lhes foi permitido tocar os familiares. Foi julgada por juízes sem rosto, e se comprovou sua inocência. Sua vida mudou radicalmente desde o ocorrido no Presídio Castro Castro, não só pelas cicatrizes que tem no corpo que não lhe permitem levar uma vida normal, mas também porque foi estigmatizada como terrorista. Quando esteve em liberdade quis ter uma vida nova com sua família, mas não pôde. Sempre se lembrará daqueles fatos que a deixaram marcada para sempre. Além disso, adquiriu transtornos, já que nos primeiros anos tinha pesadelos com o presídio, os cadáveres e os fuzilamentos. Referindo-se aos fatos no presídio e a todas as situações dolorosas por que passou, a testemunha declarou “[…] realmente eu não sei por que tanta maldade[, …] não sei por que o ser humano pode chegar a esse extremo de maldade”. Também se referiu aos valores que infunde aos alunos em sua vida profissional, já que assim como viu tanta maldade também houve gente que a ajudou. 2. Julia Genoveva Peña Castillo, mãe das supostas vítimas Julia Marlene Olivos Peña e Víctor Javier Olivos Peña É mãe de dois internos que estavam presos no Presídio Castro Castro. Na manhã de 6 de maio de 1992, soube pelo noticiário que algo estava acontecendo no presídio, e, imediatamente, se dirigiu a suas instalações. Chegou ao presídio aproximadamente às 7h. Havia muitos militares e meios de comunicação. Também chegaram os familiares de internos que se inteiravam do que estava acontecendo e, como era uma quarta-feira de visita, continuavam chegando mais familiares. Por volta das 15h se utilizou mais força e chegaram mais militares. Os familiares não tiveram nenhuma espécie de informação em relação aos distúrbios no presídio e receberam um tratamento “muito duro” por parte dos militares. Na tarde de 9 de maio de 1992, o ataque se intensificou. Muitas mães se abraçaram “porque os estrondos do canhão eram algo que chegava até [seus] corações”. Viam-se os pedaços do pavilhão que voavam. Pensavam que seus filhos já não estariam mais vivos porque o ataque era muito forte. Escutaram claramente a voz do coronel do presídio que dizia “saiam, rendam-se, saiam”. Reconheceu a voz de sua filha que gritava “parem com o fogo, parem com o fogo, vamos sair, queremos sair”. Ficou muito comovida ao ouvir a voz da filha. Mais tarde “já não se escutavam vozes, só se escutavam muitos tiros parecidos com os de metralhadora ou de arma longa”, que escutavam a cada tanto. Os familiares passaram a noite ali, sem saber quem eram os mortos e feridos, já que não lhes deram informação.

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