e vantagens propiciadas por inúmeros projetos oficiais (eletrificação, crédito e custeio, casas de alvenaria,
caixas d'água, arruamento e planejamento urbano) porque não têm porto, nem têm proximidade dos
recursos hídricos mais abundantes, vivem sob o signo da escassez e, sobretudo, não conseguem reproduzir
a unidade de trabalho familiar, posto que há uma desagregação dos núcleos familiares. As glebas são
diminutas e insuficientes para uma produção permanente e registra-se uma migração crescente não
apenas de jovens, mas de grupos familiares66.
100.
O perito Alfredo Wagner Berno de Almeida, na audiência pública realizada perante a Comissão, ainda
assinalou o seguinte:
- A empresa Alcântara Cyclone Space “destruiu as nascentes, devastou todas as áreas de plantio, destruiu
os caminhos antigos, de maneira que as pessoas que viviam ali há três séculos não conseguem mais se
movimentar”.
- O CLA proibiu em diversas áreas que os quilombolas tenham plantios.
- As condições de vida das comunidades se tornaram tão difíceis que, atualmente, elas estão plantando
clandestinamente dentro da área do CLA67.
101.
A Comissão também registra as informações fornecidas pela parte peticionária com relação às
ameaças e assédios que vêm recebendo por parte da Força Aérea e de funcionários do CLA. O que vem sendo
feito para que não ingressem nas zonas demarcadas pelo Estado para o funcionamento e operação do centro.
Foi mencionado que tais ameaças e assédios também se deram para com membros das comunidades
reassentadas em agrovilas que queriam construir casas. Foi explicado que em alguns casos foram demolidas
as construções que não tinham autorização estatal68. Tais fatos foram denunciados perante as autoridades
judiciais, como será mencionado na próxima seção.
F. Medidas informadas pelo Estado
102. Frente à situação das comunidades reassentadas, a CIDH registrou as informações apresentadas pelo
Estado brasileiro. Com relação às alegadas falhas em matéria de saúde e educação, o Estado assinalou que
isso era responsabilidade dos demais entes federativos. Sobre as agrovilas, explicou que suas terras poderiam
necessitar melhorias no futuro. Argumentou que não se proibia a construção de casas, mas que as pessoas
que estivessem interessadas em ampliar a moradia teriam que seguir os procedimentos estabelecidos.
Explicou que a presença de funcionários estatais era para que houvesse uma ocupação ordenada das
agrovilas, o que incluía o controle do acesso e a imposição do uso de crachás nas áreas de pesca para garantir
a segurança do trânsito de pessoas. Também explicou que as restrições do trânsito na estrada estatal de
acesso às comunidades se davam por razões de segurança.
103. Com relação às alegadas restrições para o acesso a cemitérios, o Estado sustentou que não tinha
conhecimento de que houvesse sido negado o acesso à área ou o registro de pedidos de visitas ao lugar. Com
relação às condições laborais, o Estado registrou as informações sobre o “arregimento de mulheres, nos
povoados e agrovilas, para o trabalho doméstico em residências de funcionários do CLA, bem como em suas
próprias instalações, sem assinatura da carteira de trabalho e em importância inferior ao salário mínimo”, e
o “utilização, por funcionários [do] CLA, de expressões injuriosas e racistas contra os moradores dessas
áreas”. Sobre tal situação o Estado ressaltou que o CLA “não é juridicamente responsável pelas relações
trabalhistas pactuadas entre os seus funcionários (como cidadãos) com terceiros – pessoa física, qualquer
que seja a linha de fornecimento do serviço”, que a direção do Centro “desconhece e repudia quaisquer
atitudes comportamentais nesse sentido [racista]”, que 80% dos soldados são de Alcântara e que vários
profissionais do Centro são nascidos no Maranhão69.
Anexo 2, pág.99.
CIDH. Audiência Pública.
68 Escrito da parte peticionária de 15 de outubro de 2006.
69 Escrito do Estado de 29 de janeiro de 2002.
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