3 presença da tragédia nos mistérios que circundam a vida, que alguns têm buscado simplificar caracterizando-a como destino. O sofrimento humano continua sendo irremediavelmente uma triste marca da condição humana ao longo dos séculos. Com particular clarividência, Sófocles advertia, já no século V a.C., em seu Édipo Rei5, que jamais há que dizer que alguém é feliz até o momento em que tenha transpassado o limite extremo da vida livre da dor. 8. E a evolução da justiça privada (dos antigos gregos) à justiça pública (dos "modernos" e "pós-modernos") parece prosseguir inacabada, revestindo-se de um cunho sobretudo ritualista, contaminada pela erosão e "terceirização" dos serviços públicos e por uma justiça meramente formalista. Ao que se agrega a lamentável transformação de bens públicos como a saúde e a educação em mercadorias. Damião Ximenes Lopes teve morte violenta ao ser confiado à "previdência" social pública e ao ser confinado em uma casa de "repouso", a de Guararapes. 9. A morte violenta do indefeso Damião, que buscava tratamento médico, teve um efeito devastador na vida não só de sua irmã Irene, mas nas de todos os familiares imediatos. Conforme o relato de Irene perante a Corte, o irmão gêmeo de Damião, Cosme, dada a proximidade com o irmão vitimado, "entrou em estado de choque" ao tomar conhecimento do falecimento de Damião. Mas, - agregou Irene, - "até hoje o Cosme não sabe os detalhes da tortura e da violência; nós omitimos porque isto ia causar muito sofrimento para ele e queríamos preservar a saúde dele"6. Em outras palavras, ele foi devidamente preservado da verdade, o que se mostra em determinadas circunstâncias necessário, pois a tragédia do conhecimento da condição humana pode afigurar-se por vezes insuportável, sobretudo aos mais vulneráveis ou sensíveis. 10. A vida da mãe foi "completamente arruinada", está sempre a recordar-se da morte do filho Damião, "até hoje ela tem depressão e declara que tem desejo de morrer"7. Mãe e pai já se encontravam separados, mas haviam preservado os laços familiares de afeto com os filhos; o pai, tomado por "grande sofrimento" e "desejo de vingança" pela morte de Damião, buscou "ajuda espiritual" em uma igreja evangélica, o que "o amenizou"8. O sofrimento humano tem, ademais, uma dimensão intergeneracional, passando de pais a filhos, - como advertido já no livro do Gênesis, que prognostica que serão todos os humanos conhecedores do bem e do mal (3,5). 11. As sombras da existência humana são retomadas pelo livro de Jó, em que os opressores dão aos oprimidos suas ordens, marcadas pela violência (24.2-4.9 e 24.5-8.10-12ab). Na época da morte de Damião, a irmã Irene tinha uma filha recém-nascida, que, em conseqüêcia do ocorrido, deixou de ser amamentada; como assinalou Irene perante esta Corte, "devido ao abalo emocional, eu fiquei semanas sem alimentá-la, e minhas mamas não produziram leite; minha filha ficou sem alimento natural, teve que tomar alimento artificial"9. O sofrimento humano passa de geração a geração, desde o início ao fim da vida. Como já o advertia o Eclesiastes, "as lágrimas dos oprimidos não há quem as console; ninguém os apoia contra a violência de seus opressores" (4,1). . Na penetrante frase final - versos 1529-1530. . [CtIADH], Transcrição da Audiência Pública..., op. cit. supra n. (3), p. 27. . Ibid., p. 28. . Ibid., pp. 28. . Ibid., p. [9]. 5 6 7 8 9

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