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médico descartou possíveis causas da morte, mas não fundamentou seu diagnóstico de morte por
parada cardiorespiratória e ignorou a existência de lesões e deveria então ter determinado a
realização de necropsia, a fim de proceder a um estudo exaustivo do cadáver da suposta vítima.
183. Ante a falta de clareza com relação às circunstâncias que cercaram a morte do senhor
Ximenes Lopes, seus familiares levaram o corpo para o Instituto Médico Legal da cidade de
Fortaleza, capital do Estado do Ceará, para a realização da necropsia.
184. O Instituto Médico Legal realizou a necropsia do senhor Damião Ximenes Lopes, concluindo
que se tratava de “morte real de causa indeterminada” e deixando registrada a existência de
diversas lesões, embora não mencionasse como teriam sido provocadas. Tampouco descreveu o
exame do cérebro da suposta vítima, o que motivou o Ministério Público a pedir ao Delegado de
Polícia que solicitasse ao Instituto Médico Legal esclarecimentos sobre o conteúdo da necropsia
referente às lesões nela descritas. Após duas reiterações do Delegado de Polícia, o Instituto
esclareceu que “[a]s lesões descritas [no laudo do exame cadavérico] foram provocadas por ação
de instrumento contundente (ou por espancamento ou por tombos)” (par. 112.14 e 112.15
supra). Cumpre salientar que não foram tiradas fotografias do corpo do senhor Damião Ximenes
Lopes.
185. Em 20 de junho de 2001, a Quinta Vara Cível, em que tramita a ação civil de reparação de
danos, ordenou, como prova pericial, a realização da exumação do cadáver da suposta vítima. O
relatório conclusivo mencionou novamente que a morte do senhor Ximenes Lopes era uma “morte
real de causa indeterminada” (par. 112.16 e 112.54 supra).
186. A esse respeito, a senhora Lídia Dias Costa, na peritagem apresentada na audiência
pública perante a Corte, declarou que na exumação do cadáver do senhor Damião Ximenes Lopes
se pôde constatar que seu cérebro havia sido aberto como se faz nas necropsias, mas que não
encontrava motivos justificados para que isso não fosse expresso ou descrito no laudo da
necropsia realizada em 1999. Segundo a perita, trata-se de um procedimento de rotina e não há
justificativa para não examinar o cérebro ou não descrever o que foi examinado. Declarou
também que se poderia formular um diagnóstico, com base na evolução clínica do paciente, de
morte violenta causada por traumatismo cranioencefálico (par. 47.4.a supra). O relatório do
exame pos-exumático confirma que o crânio apresentava uma “craniotomia transversal”,
resultado de exame pericial anterior (par. 112.16 supra).
187. Esta Corte considera que o protocolo da necropsia realizada ao senhor Damião Ximenes
Lopes em 4 de outubro de 1999 não cumpriu as diretrizes internacionais reconhecidas para as
investigações forenses, já que não apresentou, entre outros elementos, uma descrição completa
das lesões externas e do instrumento que as teria provocado, da abertura e descrição das três
cavidades corporais (cabeça, tórax e abdômen), referindo-se na conclusão à “causa
indeterminada” da morte e, por conseguinte, tampouco mencionou o instrumento que as teria
provocado. Por sua vez, a Direção Técnico-Científica do Instituto Médico Legal que realizou a
exumação também concluiu que se tratava “de um caso de morte real de causa indeterminada”.
Este Tribunal estima que os Estados, em atendimento a suas obrigações de investigar os delitos,
devem designar uma autoridade competente para a realização das investigações forenses, entre
as quais se inclui a necropsia, em observância das normativas interna e internacional. Neste caso
está claro que o Instituto de Medicina Legal não realizou as investigações nem documentou os
achados encontrados no decorrer da necropsia, conforme dispõem as normas e práticas forenses.
188. Por outro lado, no que se refere à investigação policial sobre a morte do senhor Damião
Ximenes Lopes, está demonstrado que foi iniciada pela Delegacia Regional de Sobral em 9 de