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284. O ataque foi realizado com armas muito lesivas, com explosões, gases e fumaça,
com disparos indiscriminados, em escuridão total, num espaço fechado e em condições de
amontoamento. Os internos sofreram ferimentos causados pelas balas, explosões, gases,
fragmentos, granadas, bombas e queda de reboco durante os quatro dias que durou o
ataque. Com respeito ao tipo de lesão sofrida pelos internos, o perito Peerwani ressaltou
que eram “ferimentos estranhos”, nos quais se encontravam “arranhões por armas de fogo,
feridas nos pés, nas pernas, nas extremidades, e em outros ângulos não comuns”, bem
como nas costas e nas extremidades. Na opinião do perito, esse tipo de ferimento mostrou
que os disparos foram feitos ao acaso, de forma arbitrária, razão pela qual os internos se
esforçaram por se esquivar das rajadas de balas dirigidas a eles (par. 187 supra).
285. Todos os internos enfrentaram condições de sofrimento adicionais no curso desses
quatro dias, como a falta de alimentos, água, luz e atendimento médico.
286. Na peritagem que apresentou, a perita Deutsch destacou que os internos
experimentaram “sofrimento psicológico e emocional intenso, pois
os feridos não
receberam atendimento e […] tiveram de presenciar com impotência [essa] situação” (par.
186 supra).
287. Segundo as perícias apresentadas neste processo e nos depoimentos anexados, os
internos que viveram o ataque em maio ainda sofrem graves sequelas psicológicas. Os
peritos Deutsch e Quiroga afirmaram que as consequências psicológicas do ataque
correspondem à síndrome de estresse pós-traumático.
288. A Corte considera que os internos que sobreviveram ao ataque experimentaram
tortura psicológica pelas ameaças constantes e pelo perigo real provocado pelas ações
estatais, os quais podiam causar sua morte e sérios danos à sua integridade física.
289. Cumpre também salientar que o cadáver da interna Julia Marlene Olivos Peña
apresentava “sinais visíveis de tortura” (par. 197.38 supra). Essa circunstância mostra a
violência extrema com que os agentes estatais agiram durante a “operação”.
290. O ataque foi iniciado contra o pavilhão das mulheres 1A do Presídio Miguel Castro
Castro. As internas que se encontravam nesse pavilhão, inclusive as grávidas, viram-se
obrigadas a fugir do ataque em direção ao pavilhão 4B. Essa locomoção foi especialmente
perigosa em virtude das condições do ataque antes descritas; as internas sofreram diversos
ferimentos. Um dado que mostra as condições extremas em que se desenvolveu o ataque
foi que as prisioneiras tiveram de se arrastar coladas ao chão e passar por cima de corpos
de pessoas mortas, para evitar serem alcançadas pelas balas. Essa circunstância foi
particularmente grave no caso das mulheres grávidas que se arrastaram sobre o ventre.
291. Essas características do ataque vivido pelas internas, que observaram a morte das
companheiras e viram outras grávidas feridas arrastando-se pelo chão, criaram, conforme
descreveu a testemunha Gaby Balcázar, “um clima de desespero entre as mulheres”, de
forma tal, que sentiam que iam morrer. No mesmo sentido, a perita Deutsch concluiu que,
durante os quatro dias de duração do ataque, “[o]s internos ficaram aterrorizados pelo
medo de morrer [, o que] originou um sofrimento psicológico e emocional intenso”.
292. É importante esclarecer que, da prova apresentada ao Tribunal e dos depoimentos
dos internos, depreende-se que as internas grávidas também foram vítimas do ataque ao
presídio. As mulheres grávidas que viveram o ataque experimentaram um sofrimento
psicológico adicional, já que, além de verem comprometida sua própria integridade física,