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No hospital não recebeu o atendimento médico necessário; não tomou banho, e por isso as
moscas pousavam em seu corpo, que estava cheio de sangue; ficou sem poder comer, já
que por causa dos ferimentos não podia comer sem auxílio, e ninguém a ajudava; ficou nua
na frente dos militares que a vigiavam e apontavam-lhe permanentemente os fuzis; e não
permitiam que usasse o banheiro sozinha ou que recebesse visitas dos familiares. Todo esse
tempo recebeu maus-tratos por parte dos militares. No hospital morreram, por falta de
atendimento, Consuelo, Noemí (não lembra os sobrenomes) e María Villegas.
Posteriormente, foi transferida para a prisão de Chorrillos, descalça e vestida com uma bata
que a Cruz Vermelha lhe havia doado. Nessa cadeia as internas ficaram amontoadas, em
celas sem as condições normais de higiene, sem água, com má alimentação, e não lhes
permitiam realizar atividades como ler, trabalhar ou sair ao pátio. Aproximadamente cinco
meses depois dos ataques ao presídio puderam receber visita; entretanto, não lhes foi
permitido tocar os familiares.
Foi julgada por juízes sem rosto, e se comprovou sua inocência. Sua vida mudou
radicalmente desde o ocorrido no Presídio Castro Castro, não só pelas cicatrizes que tem no
corpo que não lhe permitem levar uma vida normal, mas também porque foi estigmatizada
como terrorista. Quando esteve em liberdade quis ter uma vida nova com sua família, mas
não pôde. Sempre se lembrará daqueles fatos que a deixaram marcada para sempre. Além
disso, adquiriu transtornos, já que nos primeiros anos tinha pesadelos com o presídio, os
cadáveres e os fuzilamentos.
Referindo-se aos fatos no presídio e a todas as situações dolorosas por que passou, a
testemunha declarou “[…] realmente eu não sei por que tanta maldade[, …] não sei por que
o ser humano pode chegar a esse extremo de maldade”. Também se referiu aos valores que
infunde aos alunos em sua vida profissional, já que assim como viu tanta maldade também
houve gente que a ajudou.
2.
Julia Genoveva Peña Castillo, mãe das supostas vítimas Julia Marlene
Olivos Peña e Víctor Javier Olivos Peña
É mãe de dois internos que estavam presos no Presídio Castro Castro. Na manhã de 6 de
maio de 1992, soube pelo noticiário que algo estava acontecendo no presídio, e,
imediatamente, se dirigiu a suas instalações. Chegou ao presídio aproximadamente às 7h.
Havia muitos militares e meios de comunicação. Também chegaram os familiares de
internos que se inteiravam do que estava acontecendo e, como era uma quarta-feira de
visita, continuavam chegando mais familiares. Por volta das 15h se utilizou mais força e
chegaram mais militares. Os familiares não tiveram nenhuma espécie de informação em
relação aos distúrbios no presídio e receberam um tratamento “muito duro” por parte dos
militares.
Na tarde de 9 de maio de 1992, o ataque se intensificou. Muitas mães se abraçaram
“porque os estrondos do canhão eram algo que chegava até [seus] corações”. Viam-se os
pedaços do pavilhão que voavam. Pensavam que seus filhos já não estariam mais vivos
porque o ataque era muito forte. Escutaram claramente a voz do coronel do presídio que
dizia “saiam, rendam-se, saiam”. Reconheceu a voz de sua filha que gritava “parem com o
fogo, parem com o fogo, vamos sair, queremos sair”. Ficou muito comovida ao ouvir a voz
da filha. Mais tarde “já não se escutavam vozes, só se escutavam muitos tiros parecidos
com os de metralhadora ou de arma longa”, que escutavam a cada tanto. Os familiares
passaram a noite ali, sem saber quem eram os mortos e feridos, já que não lhes deram
informação.