-66-
97.
No presente caso, a Corte recorda sua jurisprudência quanto a que, em casos que
envolvem o desaparecimento forçado de pessoas, é possível entender que a violação do
direito à integridade psíquica e moral dos familiares da vítima é uma consequência direta,
precisamente, desse fen��meno, que lhes causa um severo sofrimento pelo próprio fato, que
se aprofunda, entre outros fatores, pela constante negativa das autoridades estatais de
proporcionar informação sobre o paradeiro da vítima ou de iniciar uma investigação eficaz
para esclarecer o ocorrido.77
98.
Sem prejuízo do anterior, a Corte considera pertinente analisar as situações que,
segundo seus testemunhos e os fatos provados (pars. 56 e 61 supra), foram vividas por
alguns destes familiares no contexto anterior, simultâneo e posterior à detenção ilegal e
desaparecimento forçado dos senhores Agustín Goiburú Giménez, Carlos José Mancuello
Bareiro e Benjamín e Rodolfo Ramírez Villalba, que poderiam agravar as lesões ao direito à
integridade pessoal.
99.
A seguir a Corte exporá as situações vividas pelos familiares antes da detenção e do
desaparecimento das vítimas mencionadas:
a) a família do doutor Agustín Goiburú Giménez viveu junto com ele durante vários
anos no exílio, devido às ameaças, assédio vigilância e perseguição sofridas por ele
em função de sua oposição ao regime ditatorial;
b) antes que a família Goiburú Benítez saísse do Paraguai, o governo stronista quis
incriminar a senhora Elva Elisa Benítez de Goiburú, esposa do doutor Goiburú, “como
suposta criminosa, terrorista, que guardava armas de guerra” em sua casa, “com
base em torturas de outros prisioneiros”;
c) no momento em que a família foi para o exílio na Argentina, Rogelio e Rolando, os
filhos mais velhos da casal, ainda eram crianças. Sua filha mais nova, Patricia
Jazmín, nasceu no exílio. A família do doutor Goiburú sofreu constantes mudanças de
casa, de cidade e até de país, em uma ocasião, em razão das ameaças recebidas. A
este respeito, seu filho mais velho manifestou: “Sempre fomos objeto de
perseguições. Com apenas 10 anos de idade já nos havíamos mudado 15 vezes de
casa, três vezes de cidade e 7 vezes de bairro”;
d) em novembro de 1969, Rolando, filho do doutor Gobiurú, com 11 anos de idade
naquele momento, e seu pai, foram sequestrados enquanto pescavam no rio Paraná,
na Argentina, e levados ao Paraguai, com armas de fogo apontadas ao peito.
Rolando esteve encarcerado e “chorou e gritou toda a noite.” Além disso, “viu seu
pai algemado e com a cabeça coberta.” Posteriormente, foi deixado à sua própria
sorte na cidade de Encarnación. Com base nestes fatos, a senhora Elva Elisa Benítez
de Goiburú realizou várias gestões pessoais perante organismos internacionais para
saber o paradeiro de seu esposo. Uma vez que soube onde estava, conseguiu
permissão para entrar no Paraguai para vê-lo, e o encontrou em graves condições
físicas;
e) a senhora Rosa Mujica Giménez foi detida em 1970, por ser irmã do senhor Goiburú.
Passou a maior parte de sua gravidez na prisão e deu à luz em uma Delegacia. Uma
77
Cf. Caso dos Massacres de Ituango, nota 1 supra, par. 340; Caso Gómez Palomino, nota 5 supra, par. 61,
e Caso do Massacre de Pueblo Bello, nota 5 supra, par. 143.
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