-2361. Durante a audiência pública (par. 23 supra), a Corte ouviu os depoimentos das
testemunhas propostas pela Comissão Interamericana e pelas representantes. A seguir, o
Tribunal resume as partes relevantes desses depoimentos.
a) Gisela Ortiz Pérez, irmã de Luis Enrique Ortiz Pérez
Quando seu irmão desapareceu tinha 20 anos e também era estudante da Universidade de
La Cantuta.
Desde o início os familiares procuraram a verdade e a justiça. A partir da ocorrência dos
fatos os familiares conduziram ações públicas de denúncia e de sensibilização perante a
sociedade peruana e a comunidade internacional, para “construir memória”, pois “é uma
forma de trazer [seu] irmão à vida”.
Ao participar das diversas diligências de busca dos familiares desaparecidos, quando foram
encontradas as fossas clandestinas, recordou que “[eles], com [suas] mãos, fo[ram]
desenterrando os restos mortais que esses criminosos deixaram. [E]stiv[eram] nas fossas
de Cieneguilla descobrindo os restos queimados d[os] familiares […] no ano de 1993 […]
Escava[ram] essa terra para tirar do fundo dessa terra a verdade”.
Declarou que “dessa terra brotou o corpo d[o] irmão, que é o único cadáver que esses
assassinos deixaram, um cadáver seco devido a todo o cal que jogaram nele [. P]ara [ela],
o mais doloroso que teve de suportar até agora foi descobrir – um ano e meio depois – que
[o] irmão estava jogado nessa cova”.
O corpo de seu irmão foi o único cadáver encontrado, e tinha cinco disparos de bala na
cabeça. Os familiares “não sabia[m] que esses criminosos eram tão cruéis a ponto de
escondê-los, para negar-[lhes] o direito de enterrá-los”. Dá “graças à vida e […] a Deus
[por] ter encontrado [o] irmão”, pois no Peru “milhões de vítimas” não têm essa
oportunidade.
O dano causado não é somente pelo desaparecimento e a morte do irmão, mas por todas as
sequelas que deixaram em sua família e em sua vida pessoal. “Tev[e] de deixar [os]
estudos na universidade. Realmente […] era bem difícil pisar na universidade e não se sentir
emocionalmente mal porque [seu] irmão não estava mais lá, [seus] companheiros da
universidade não estavam mais lá. Custou-[lhe] mais de dez anos decidir voltar a estudar.
[S]entia que se […] avançasse pessoalmente estaria traindo [seu] irmão, porque
simplesmente ele não estava mais lá e não podia realizar tudo que havia pensado”.
Além disso, “[as] irmãs menores […] sofrem até hoje as mesmas sequelas [que ela] de
ansiedade, de depressão, da própria instabilidade emocional, de serem pessoas tão
desconfiadas. Sente pena de ver [os] pais serem atingidos por essa história […] sempre
[vão] falar de um antes e de um depois. Então […] reconhece[m] com clareza como foi
[sua] vida antes de 18 de julho de 1992 e como mudou […] depois disso […]”.
Ela teve de deixar a Universidade porque se dedicou a buscar justiça. É difícil para ela
continuar uma vida normal, e não tem um projeto de vida pessoal; não pode se arriscar a
ter um filho nas atuais circunstâncias.
Com relação aos processos, não há nenhuma sentença concreta contra os responsáveis pela
morte de seus familiares. Ao contrário, os autores intelectuais “apressaram-se a proferir
uma sentença no foro militar, na qual anulavam e arquivavam sua denúncia por falta de
provas”.
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