16
internados. Essa comissão de inquérito fez um diagnóstico completo da situação de deficiência
mental de cada paciente e começaram gradualmente a processar altas para os pacientes do
Município de Sobral e sua vinculação ao Programa Saúde da Família, com apoio domiciliar e
comunitário. Posteriormente o hospital foi fechado.
A partir do dia 1 de janeiro de 1997, começaram uma série de reestruturações administrativas no
âmbito do Município para ajustar as políticas do Sistema Único de Saúde em varias áreas. No final
de 1998, já havia um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que brinda atendimento
ambulatorial e atenção diária a pacientes com deficiências mentais. Esse sistema evoluiu e hoje já
existe o tratamento de intra-pacientes com deficiências mentais agudas na área de saúde mental
em hospital geral. Existe também um CAPS para transtornos na área geral e um para pessoas
com problemas na área de alcoolismo e drogadição. Recentemente inaugurou-se um CAPS com o
nome do senhor Damião Ximenes Lopes para homenageá-lo.
Atualmente a qualidade no atendimento é muito melhor que no ano de 1999. A partir da
descentralização houve um intenso processo em que se diminuiu o número de hospitais e
manicômios e se humanizou a assistência psiquiátrica nas cidades brasileiras. O Município de
Sobral é considerado uma das experiências exitosas nessa área, não só do ponto de vista local,
mas também nacional e internacional. Esse município ganhou vários prêmios, entre eles o do
glorioso sanitarista David Capistrano e outros prêmios de reconhecimento de inclusão social. O
Estado tem sido uma referência na diminuição dos hospitais psiquiátricos e no avanço contra os
manicômios nas Américas.
A partir dos CAPS, estabeleceu-se uma estrutura com uma equipe interdisciplinar de médicos,
assistentes sociais, psicólogos, farmacêuticos, terapeutas. Os pacientes realizam trabalhos para
inserir-se economicamente na sociedade, quando antes estavam totalmente destinados a viver
em manicômios.
b)
Pedro Gabriel Godinho Delgado, Coordenador Nacional do Programa de
Saúde Mental do Ministério da Saúde
Desde a morte do senhor Damião Ximenes, houve no Estado uma redução de 19.000 leitos
psiquiátricos em instituições semelhantes a Casa de Repouso Guararapes. Além disso, entre os
anos de 1999 a 2005, foram criados de quinhentos a seiscentos serviços extra-hospitalares,
capazes de atender a situações graves de saúde mental, sem a necessidade de hospitalizar o
paciente. Foram também criados outros tipos de serviço, como as residências terapêuticas
capazes de receber pacientes menos graves. Foi um período em que o país inteiro enfrentou um
debate significativo sobre as condições de vida dos pacientes do sistema psiquiátrico
Em 2001, aprovou-se a Lei n° 10.216, cuja base é a defesa dos direitos do paciente mental, a
mudança do modelo de assistência em instituições como a Casa de Repouso Guararapes por uma
rede de cuidados aberta e localizada na comunidade e o controle externo da internação
psiquiátrica involuntária, nos termos propostos pela Declaração de Direitos do Paciente Mental da
ONU de 1991.
Em 1999, cerca de 90% dos recursos financeiros que a saúde pública destinava ao campo da
assistência psiquiátrica e saúde mental eram destinados ao Modelo Hospitalar Cêntrico e a rede
externa recebia apenas 10% dos recursos. Hoje os recursos para a saúde mental no Brasil
aumentaram globalmente e 63% dos recursos são ainda destinados a hospitais com equipamento
caro, mas de 37 a 40% dos recursos já são destinados ao serviço extra-hospitalar. Portanto,
hoje, no Brasil, vive-se um processo de transição para um modelo de atenção psiquiátrica
baseada nos direitos do paciente, na atenção integral, no respeito aos seus direitos individuais e
na participação dos familiares no tratamento.