221. Em 24 de julho de 1999247, o senhor Pérez Charles foi detido por vários agentes de
migração quando voltava do trabalho. Os oficiais pediram seus documentos, ele respondeu
que estava em sua casa e pediu para que lhe dessem a oportunidade de buscá-los, mas não
permitiram. Em seguida, os oficiais o colocaram em um ônibus, no qual havia muitas pessoas,
e viu como batiam em algumas delas. As autoridades dominicanas os levaram a um centro de
detenção “onde havia muitos haitianos presos” e, posteriormente, transportou-os para
Jimaní, de onde foram expulsos para o território haitiano. No traslado, não lhes deram água ou
comida. Quando o senhor Pérez Charles chegou ao Haiti, encontrou um homem que, depois
de pagar, o ajudou a voltar a pé para a República Dominicana, e levou vários dias caminhando
para chegar a sua casa outra vez. Por causa da expulsão, perdeu seu emprego na cana-deaçúcar248. Vive com medo de que o expulsem novamente249. Segundo Rafaelito “a pessoa é
detida porque é preta, porque é negra”250. O Estado fez constar que não existe registro de sua
deportação251.
B.2.6. Família Jean
222. O senhor Víctor Jean e seu filho Markenson manifestaram que o primeiro nasceu em
Jimaní, República Dominicana252, em 13 de abril de 1958. O senhor Víctor Jean vivia em Villa
Faro, República Dominicana, com sua família composta pela senhora Marlene Mesidor,
nascida no Haiti, em 3 de julho de 1972, com passaporte haitiano,253 e seus quatro filhos:
Markenson Jean Mesidor, nascido em 15 de novembro de 1992, no Haiti, com passaporte
haitiano254; Miguel
de julho de 2012 (Expediente de anexos ao Relatório de Mérito, fl. 216). Além disso, de acordo com o ofício da Junta Central
Eleitoral de 5 de julho de 2012, informou que anexava “a impressão digital do Sistema Central da Justiça Eleitoral e o Registro de
nascimento do senhor Rafaelito Pérez Charles, onde pode se verificar que se encontram livres de qualquer impedimento para sua
expedição” e apresentou o certificado da Junta Central Eleitoral de 4 de julho de 2012 (Expediente de anexos ao Relatório de
Mérito, fls. 2.171, 2.172 e 2.199).
247 Cf. Declaração de Rafaelito Pérez Charles, prestada mediante affidavit; e Declaração de Rafaelito Pérez Charles, perante a
Universidade de Columbia, de 10 de janeiro de 2001 (anexos ao Relatório de Mérito, anexo 37, fls. 298 a 299), na qual declarou
que a expulsão foi em 24 de julho de 1999.
248 Cf. Declaração de Rafaelito Pérez Charles, prestada mediante affidavit. Na declaração, manifestou que tinha levado uma
semana caminhando para chegar em sua casa. No entanto, na declaração prestada em 10 de janeiro de 2001, perante a
Universidade de Columbia, disse que foram quatro dias.
249
Declaração de Rafaelito Pérez Charles, prestada mediante affidavit.
250 Cf. Declaração de Rafaelito Pérez Charles, prestada mediante affidavit.
251 Cf. Certificado expedido pela Direção Geral de Prisões, em 4 de fevereiro de 2013 (Expediente de anexos à contestação, fl.
6.220); Ofício n° 044-13, emitido pela Direção Geral de Migração do Ministério do Interior e de Polícia, no qual afirma que não existe
registro de deportação de Rafaelito Pérez Charles, entre outras pessoas mencionadas em uma lista.
252 Cf. Declaração de Markenson Jean, prestada mediante affidavit, em 29 de setembro de 2013 (Expediente de exceções
preliminares, mérito, reparações, fl. 1.730); e Declaração de Víctor Jean, prestada perante a Universidade de Columbia, de 11 de
janeiro de 2001 (anexos ao Relatório de Mérito, anexo 39, fl. 350). O Estado apresentou um documento intitulado Certificado de
não Declaração de Víctor Jean, emitido pelo Cartório Civil de Jimaní; correspondente ao Livro n° 18 de 1958, assim como um
documento denominado Certificado de não Declarado, expedido pelo Cartório do Estado Civil do Município de La Descubierta,
em 8 de fevereiro de 2013, o que refletiu que, após uma busca minuciosa nos livros de nascimentos oportunos e tardios de seus
arquivos, desde 1958 até 2000, não foi possível localizar o nome de Víctor Jean, nascido em 13 de abril de 1958 (Expediente de
anexos à contestação, fl. 6.550). Da mesma forma, o Estado apresentou outros certificados que comprovam o mesmo (Cf.
Expediente de anexos à contestação, fls. 6.551, 6.552, 6.553, 6.554 e 6.555. Nota-se que em alguns desses certificados, o nome
de Víctor Jean aparece como Jeam ou Jan).
253 Cf. Declaração de Marlene Mesidor, prestada mediante affidavit; Declaração de Markenson Jean, prestada mediante affidavit;
e Salvo-conduto de Marlene Mesidor (Expediente de anexos ao escrito de petições e argumentos, anexo B07, fl. 3.523).
254
Cf. Certidão de Nascimento de Markenson Jean; Declaração de Markenson Jean, prestada mediante affidavit; e Declaração de
Marlene Mesidor, prestada mediante affidavit. Segundo as declarações de Marlene Mesidor e de Markenson Jean, em 1991,
Víctor Jean e Marlene Mesidor foram expulsos da República Dominicana. Afirmaram que depois de permanecer no Haiti, o
senhor Jean regressou à República Dominicana para trabalhar, enquanto a senhora Mesidor, que estava novamente grávida,
permaneceu no Haiti, onde nasceu seu filho Markenson. Depois, regressou à República Dominicana quando seu filho tinha um
ano de idade, em 1993.