30 111. Assim mesmo, perante a Corte, a perita Rosalina Tuyuc referiu-se à perseguição dos líderes indígenas na Guatemala durante o conflito armado interno, manifestando que: [P] or questões de história, tradição, costume e boa fé, muitos dos dirigentes no país nascem, são formados e colocam seus conhecimentos a serviço da comunidade, todo dirigente começa um processo, desde o menor cargo, até o cargo mais alto; dentro disso, todos os dirigentes comunais no país foram alvo principalmente da perseguição do Exército[. P]ensavam que ,em consequência da influência das lideranças [,] o Exército principalmente[,] os via como uma grande ameaça, porque viu o trabalho comunitário e também todo o trabalho social, todo o trabalho de solidaridade de uns com os outros, como um problema do comunismo. [Q] uando as comunidades perderam um a um os seus líderes, nelas também foi encerrando uma esperança de desenvolvimento[. T]oda liderança significou uma perda muito profunda e um retrocesso muito grande para nossos povos, porque cada liderança que cresce, […] é por seu dom de serviço, por seu dom de condução, por seu dom de poder escutar e de poder orientar a comunidade[. E j]á não ter um guia é […] o momento da escuridão, um líder sempre foi uma luz e, quando a luz já não existe[,] as comunidades ficam praticamente na escuridão, sem saber o que fazer para a busca de soluções aos problemas comunitários. […] Historicamente, o sistema oficial sempre foi muito racista, excludente dos povos indígenas, e, quando algum indígena consegue chegar a alguma autoridade, isso também significava vir a exigir-lhe soluções para os problemas, mas não somente, por isso muitos dos lugares onde havia corporações indígenas, foram os lugares que mais sofreram perseguição. 112. A Corte também observa que, dos diversos testemunhos prestados no processo, constata-se a liderança de Florencio Chitay. Nesse sentido, Pablo Werner Ramírez Rivas declarou que “[d]urante a época do conflito, perderam-se muitos dos grandes dirigentes […] do partido [DC, e] como consequência de seu trabalho e liderança municipal[, Florencio Chitay Nech] foi sequestrado”.115 Igualmente, Gabriel Augusto Guerra afirmou que o senhor Chitay Nech “não apenas tinha liderança no âmbito municipal, mas também no âmbito departamental e nacional”.116 Por sua vez, Julian Zet declarou que “teve a oportunidade de viver junto com [Florencio Chitay, apelidado de] don Lencho […], líder de [sua] aldeia, que lutou pelo bem estar d[a] comunidade, pagando com sua vida a entrega a serviço d[o povo]”.117 113. Em razão do exposto acima, com a perseguição e posterior desaparecimento de Florencio Chitay, não apenas se interrompeu o exercício de seu direito político durante o período de seu cargo, mas também foi impedido de cumprir um mandato e vocação dentro do processo de formação de líderes comunitários. Além disso, a comunidade se viu privada da representação de um de seus líderes em diversos âmbitos de sua estrutura social e, principalmente, no acesso ao exercício pleno da participação direta de um líder indígena nas estruturas do Estado, onde a representação de grupos em situações de desigualdade é um pré-requisito necessário para a realização de aspectos fundamentais como a inclusão, a autodeterminação e o desenvolvimento das comunidades indígenas dentro de um Estado plural e democrático. 115 Testemunho de Pablo Werner Ramírez Rivas, nota 53 supra. 116 Testemunho de Gabriel Augusto Guerra, nota 58 supra. 117 Testemunho de Julián Zet, nota 56 supra.

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