-33presos para outro presídio, o que era considerado pelos familiares um pretexto para
executar o que chamavam de ‘genocídio’”.
Naquele mesmo dia a testemunha foi ao presídio, junto com um encarregado de segurança
designado pelo Estado. Entrevistou-se nas proximidades do presídio com o Diretor, Coronel
Gabino Cajahuanca, que comunicou à testemunha que “temia uma matança”, e solicitou
que a Comissão adotasse medidas. O coronel também o informou de que havia sido
afastado da tomada de decisões, “pois o controle do presídio havia sido assumido por uma
unidade especial das forças de segurança”.
Com base em informação prestada por diferentes fontes, a testemunha constatou que não
havia ocorrido nenhuma rebelião ou motim por parte dos presos, “mas uma ação violenta e
unilateral das forças de segurança”.
Na noite de 7 de maio de 1992, foi informado por um grupo de familiares dos internos,
acompanhados por dois de seus advogados, que “os presos aceitavam a transferência com
a condição de que estivessem presentes no ato representantes da Comissão de Direitos
Humanos da OEA e da Cruz Vermelha”. No dia seguinte transmitiu essa informação
pessoalmente ao Ministro da Justiça, de quem nunca recebeu resposta. As mais altas
autoridades governamentais estavam cientes de que os presos aceitavam a transferência.
Em 9 de maio de 1992, foi ao centro penal acompanhado do Presidente da Conferência
Episcopal. Pôde perceber que “[a] quantidade de tiros contra o pavilhão era realmente
impressionante”. Tentou aproximar-se da porta do presídio, mas as forças armadas “fizeram
disparos dissuasivos”. Também observou que havia pessoal fardado, que considerou parte
das “forças combinadas do Exército e da Polícia […, bem como] sobrevoo de helicópteros[,
…] disparos de fuzil[,] detonações de armas de grosso calibre [e] grande número de
veículos blindados”. Também ouviu apelos por megafone, que declaravam que se
dispunham a respeitar a vida dos que se entregassem, mas imediatamente depois ouviu
disparos que supôs que “eram destinados a eliminar a quem se haviam proposto”.
Após esses fatos, as autoridades peruanas não ofereceram, imediatamente, uma relação
dos feridos, mortos e sobreviventes. Não se permitiu a entrada no centro penal Castro
Castro, mas sim à prisão de Santa Mónica, ao necrotério e ao Hospital da Polícia. Quando
visitou a prisão de Santa Mónica, para onde foram transferidas algumas sobreviventes dos
fatos, observou que as mulheres “estavam ainda sujas do pó do presídio e salpicadas de
sangue”. Também o impressionou “o amontoamento das internas”.
8.
Raúl Basilio Gil Orihuela, suposta vítima
Era interno no pavilhão 4B do Presídio Castro Castro quando aconteceram os fatos. Tendo
em vista que prestou serviço militar no Peru, onde recebeu treinamento no manejo de
armamento e explosivos, reconheceu as “armas de guerra” utilizadas no interior do centro
carcerário. Também reconheceu que participaram a polícia de elite, as forças armadas,
efetivos da FOES (grupo de elite da Marinha) e francoatiradores, e antes da “operação”
observou a presença do exército peruano com uniformes de campanha nos pavilhões 4B e
imediações. Um mês antes dos fatos no presídio, os pavilhões 1A e 4B foram inspecionados,
já que a imprensa dizia que havia armas dentro do centro carcerário. O resultado da
inspeção foi que não existiam armas dentro desses pavilhões.
Na madrugada de 6 de maio de 1992, ouviu-se uma forte explosão que vinha do pavilhão
1A, onde se encontravam as mulheres. Houve disparos, bombas e gás lacrimogêneo. O
calor era insuportável, havia corpos de mulheres no chão, e as que sobreviviam pediam