-35Nos meses seguintes, continuaram as torturas. Como castigos os obrigavam a cantar o hino
nacional do Peru, cuja primeira estrofe diz “somos livres”, e jogavam querosene, cânfora e
pele de ratos nos alimentos. Eram mantidos fechados 23 horas e meia por dia, as visitas
eram restritas, era proibido trabalhar, cantar, fazer exercício e desenvolver qualquer
atividade dentro do presídio.
Em consequência do ocorrido no presídio, suas relações sentimentais foram prejudicadas, e
sua saúde piorou. Agravou-se a tuberculose de que já sofria, perdeu os dentes e grande
parte da visão, contraiu alergia a umidade e problemas digestivos. Sua família também
sofreu em consequência dos fatos. A saúde dos pais deteriorou, e os recursos econômicos
que se destinariam aos irmãos foram usados com ele, razão pela qual os irmãos não
puderam estudar.
b)
Solicitados pelo Presidente como prova para melhor resolver
10.
Nieves Miriam Rodríguez Peralta, suposta vítima
Nos “dias anteriores a 6 de maio, foi realizada uma ‘inspeção’ da qual consta que não houve
nenhuma espécie de arma [ou] ‘resistência armada’ para justificar o crime de genocídio, de
acordo com as leis peruanas, contra o grupo de prisioneiros dos pavilhões 1A e 4B,
acusados de pertencer ao Partido Comunista do Peru”.
Em 6 de maio de 1992, estava dormindo quando escutou a primeira explosão no pavilhão
das mulheres, e rapidamente percebeu que estavam sendo atacadas “brutal e
covardemente”. Observou que haviam dinamitado uma parede do pátio do pavilhão 1A e
que “balas, bombas e gás lacrimogêneo estavam por toda parte”. Observou também que
efetivos da polícia começavam a dinamitar o teto do quarto andar. As internas tentaram
encontrar uma saída por um duto porque “[p]arecia que iam derrubar o pavilhão”. Os dutos
não eram túneis construídos pelos internos, mas construções que uniam os pavilhões. Era
difícil entrar no duto porque era necessário passar em frente a uma janela, e os
francoatiradores disparavam ao menor movimento. A interna María Villegas ficou
gravemente ferida. Tentando sair do pavilhão em direção ao duto, a testemunha foi ferida
na perna por um disparo. Foi levada por dois companheiros ao pavilhão 4B. A bala causou
impacto na região lombar esquerda, atingindo as raízes nervosas. Eram vários os feridos,
mas lhes negaram atendimento médico, “mostrando uma vez mais que [às autoridades]
não importava a vida dos internos”.
Os companheiros que estavam dentro do pavilhão pediam que os feridos fossem
transferidos, e que tivessem atendimento médico. Também, “pediam reiteradamente
garantia para suas vidas (a presença de representantes da Cruz Vermelha Internacional,
advogados e familiares) para poder sair”. Entretanto, “o ataque era cada vez mais brutal e
desenfreado”. Em 9 de maio de 1992, “os prisioneiros que saíram de mãos dadas cantando
a Internacional” foram objeto de fuzilamento seletivo.
Quando se encontrava com os demais feridos, ouviu a voz de Elvia Sanabria. Depois das
transferências, percebeu sua ausência.
Esse “ataque brutal e sinistro” se estendeu a seus familiares e afetou, em especial, sua
mãe, que ficou doente do coração, esteve em tratamento psiquiátrico e quis atentar contra
a própria vida, por não suportar o sofrimento que sentiu em consequência dos ataques e,
depois, ao buscar o corpo da filha que acreditava estar morta.