-10- universitário.13 Vejo-me assim na obrigação de deixar na Universitas, e de minha convicção de que, no cas cometido em detrimento das vítimas (um professor e familiares, se cometeu uma agressão inadmissível a universalidade por excelência: a Universidade – no Cantuta. constância de minha fé inquebrantável d'espèce, ademais do crime de Estado nove estudantes universitários) e seus uma instituição dotada de caráter de caso concreto, a Universidade de La 37. No dia 6 de julho de 1953, a Universidade de La Cantuta abriu suas portas; seu nome se deve a que "foi construída em uma antiga urbanização que levava o nome da flor heráldica dos incas, que se cultiva ao longo do vale do Mantaro, com tons vermelhos e amarelos".14 A referida Universidade formava futuros docentes para ensinar nas escolas (ensino médio) do país, ou seja, cumpria sua função docente e social (apesar de que já se encontrava invadida por efetivos militares desde 21 de maio de 1991).15 38. Mas, além da função docente e social que representa em cada país, a Universidade dificilmente se realizaria sem a função supranacional – além do Estado – que lhe pertence por exigência intrínseca.16 Amplas vias de comunicação e entendimento se encontram hoje disponíveis às novas gerações, mais que em outras épocas, para o intercâmbio de ideias, o refinamento da capacidade de reflexão, discernimento e crítica, o diálogo intergeracional (entre professores e alunos), na busca da construção de um mundo mais justo e melhor para as gerações futuras. Somos chamados a repensar todo o universo conceitual em que nos formamos, em nossa visão tanto do sistema internacional como, no âmbito nacional, das instituições públicas, a começar pelo próprio Estado numa sociedade democrática. 39. É inadmissível que forças armadas invadam um campus universitário do modo mais arbitrário possível. O campus universitário é o espaço de livre pensamento, onde a livre produção e circulação de ideias devem ser preservadas e cultivadas. Ao longo dos séculos, atribuiu-se à Universidade a natureza de alma mater ("mãe criadora", alma do latim alere, significando alimentar e fazer crescer), como geradora e promotora das ideias e do saber, para engendrar e transformar o ser humano por obra do saber, para que seja capaz de dar resposta aos desafios do mundo em que vive. A invasão armada não é a única forma de agressão à Universidade tal como concebida ao longo dos séculos,17 mas é, talvez, a mais crua agressão à produção e livre circulação de ideias. No presente Caso de La Cantuta, como já se salientou, os agentes de segurança do Estado invadiram o campus universitário, adentraram as residências dos professores e dos estudantes, para sequestrar e executar suas vítimas, em nome da "segurança do Estado". A própria Universitas foi também agredida pelas forças da repressão. O tempo da busca da luz foi indevidamente tomado pelos arautos estatais das trevas. 13 Com base permanente em Brasília, mas como professor convidado em várias das principais universidades de todos os continentes. 14 Efraín Rúa, El Crimen de La Cantuta - La Desaparición y Muerte de un Profesor y Nueve Estudiantes que Estremeció al País, 4 ed., Lima, Universidad La Cantuta, 2005, p. 41. 15 Associação Pró-Direitos Humanos (APRODEH), De la Tierra Brotó la Verdad - Crimen e Impunidad en el Caso La Cantuta, Lima, APRODEH, 1994, p. 9. 16 Como se sabe, as Universidades surgiram no Continente Europeu na baixa Idade Média, cultivando métodos de raciocínio e debate essencialmente escolásticos. No final do século XIV, a concepção da Universidade se aproximou da que tem na atualidade; no Renascimento o termo Universitas adquire o sentido que hoje reveste. O sentimento de universalidade era fomentado pelo uso do latim, pelo cultivo de conhecimento de validade universal (para divulgar em todas as partes), e pela busca gradual de autores de todas as culturas. Com o tempo (até o século XVIII), as Universidades buscaram sua autonomia jurídica. 17 Outra forma de agressão que, lamentavelmente, se tornou comum em nossos tempos sombrios é a chamada "privatização" de Universidades públicas como "política de Estado" (numa espantosa inversão de valores). Como defensor da Universidade pública (pertencente que sou, portanto, a uma espécie em extinção), considero o ensino um bem público, a ser transmitido de geração em geração, e não uma mercadoria a ser vendida a quem possa pagar mais. Hoje em dia, nos bairros das cidades latino-americanas, ao lado de cada padaria há uma "Universidade privada" disposta a "ensinar", ou melhor, informar sobre qualquer coisa, desde que bem paga (com o devido respeito às padarias, que nos proveem a preço acessível (quase de graça), o pão nosso de cada dia).

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