118. Estima-se que o “ataque final” contra o PCB em São Paulo tenha começado em 29 de
setembro de 1975, quando José Montenegro de Lima foi detido, torturado e morto. Nos dias
seguintes dezenas de pessoas foram detidas.62
119. Muitas vítimas foram executadas em centros clandestinos utilizados para torturar,
assassinar e ocultar cadáveres pelos agentes do DOI-CODI/SP.63 A casa de Itapevi,
localizada na região metropolitana de São Paulo, foi apontada como o centro clandestino
utilizado pelo DOI-CODI do II Exército e pelo CIE para torturar e executar os presos da
Operação Radar (especialmente membros do PCB).64
120. Assim, paulatinamente, os militantes do PCB foram detidos, torturados ou executados
pela Operação Radar, entre os anos de 1974 e 1976.65 Segundo o Ministério Público Federal
brasileiro, provas obtidas sobre os anos 1970 a 1975 mostram a prática sistemática de
execuções e desaparecimentos dos opositores, com um registro de 281 mortes ou
desaparecimentos de opositores, ou seja, 75% do total dos mortos e desaparecidos em todo
o período da ditadura no Brasil.66
D.
Os fatos ocorridos em 25 de outubro de 1975
121. Na noite de 24 de outubro de 1975, dois agentes do DOI/CODI apresentaram-se na
sede da TV Cultura, onde Vladimir Herzog se encontrava trabalhando. O senhor Herzog foi
intimado a acompanhá-los à sede desse organismo, a fim de prestar declaração
testemunhal. Após a intervenção da direção do canal, as forças de segurança aceitaram
notificar o senhor Herzog para que “voluntariamente” depusesse na manhã do dia
seguinte.67
122. Vladimir Herzog se apresentou na sede do DOI/CODI na manhã do sábado, 25 de
outubro, voluntariamente.68 Ao chegar, foi privado de sua liberdade, interrogado e
torturado. O jornalista Rodolfo Osvaldo Konder, que, na data em questão, já se encontrava
detido no DOI/CODI, registrou:
No sábado pela manhã percebi que Vladimir Herzog tinha chegado […]. Ao meu lado
estava sentado George Duque Estrada, do “Estado de São Paulo”, e eu comentei
com ele que Vladimir Herzog estava ali presente. […] Algum tempo depois, Vladimir
foi retirado da sala. Nós continuamos sentados lá no banco, até que veio um dos
interrogadores, levou a mim e ao Duque Estrada a uma sala de interrogatório […].
Vladimir estava lá, sentado numa cadeira, com o capuz enfiado. Assim que entramos
na sala, o interrogador mandou que tirássemos os capuzes, por isso nós vimos que
era Vladimir, e vimos também o interrogador […] Tanto eu como Duque Estrada, de
fato, aconselhamos Vladimir a dizer o que sabia […]. Vladimir disse que não sabia de
nada e nós dois fomos retirados da sala e levados de volta ao banco de madeira onde
nos encontrávamos, na sala contígua. De lá, podíamos ouvir nitidamente os gritos,
62
MARKUN, Paulo. Meu querido Vlado. A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração, p. 111 a 137
(expediente de prova, folhas 8782 a 8795).
63
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 3251).
64
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folhas 3141 e 3250).
65
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 3123).
66
Ministério Público Federal, Crimes da Ditadura Militar, p. 76 e 77 (expediente de prova, folhas 14273 e 14274).
67
Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (expediente de prova,
folha 406); MARKUN, Paulo. Meu querido Vlado. A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração, p. 132 a
133 (expediente de prova, folha 8793).
68
Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (expediente de prova,
folha 406); Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 3299); MARKUN, Paulo. Meu
querido Vlado. A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração, p. 133 (expediente de prova, folha 8793).
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