primeiro do interrogador e depois de Vladimir e ouvimos quando o interrogador pediu
que lhe trouxessem a “pimentinha”69 e solicitou ajuda de uma equipe de torturadores.
Alguém ligou o rádio, e os gritos de Vladimir se confundiam com o som do rádio […].
[...] naquele momento Vladimir estava sendo torturado e gritava. A partir de
determinado momento, o som da voz de Vladimir se modificou, como se tivessem
introduzido alguma coisa em sua boca […], como se lhe tivessem posto uma
mordaça. Mais tarde os ruídos cessaram. Depois do almoço, […] o mesmo
interrogador veio […] me apanhar pelo braço e me levar até a sala onde se
encontrava Vladimir, permitindo mais uma vez que eu tirasse o capuz. Vladimir
estava sentado na mesma cadeira, [...] mas agora me parecia particularmente
nervoso.70
123. Na tarde desse mesmo dia, Vladimir Herzog foi assassinado pelos membros do
DOI/CODI que o mantinham preso. Segundo perícia da Comissão Nacional da Verdade,
determinou-se que foi estrangulado.71 Vladimir Herzog tinha 38 anos.
124. Nesse mesmo dia, o Comando do II Exército, mediante comunicado, divulgou
publicamente a versão oficial dos fatos. Afirmou que Vladimir Herzog se suicidara,
enforcando-se com uma tira de pano. O comunicado informava que Herzog havia sido
convidado a comparecer, já que fora citado por Konder e Duque Estrada como militante do
PCB. Segundo essa versão, durante uma acareação com os jornalistas mencionados, Herzog
teria confessado sua participação no partido, e teria feito, inclusive, uma declaração por
escrito.72 Finalmente, o comunicado afirmou que uma perícia técnica teria confirmado a
morte por suicídio.73
125. O assassinato de Vladimir Herzog causou grande comoção na sociedade brasileira.
Sucederam-se vários dias de greves estimuladas tanto pelo sindicato de jornalistas como
por estudantes e professores universitários.74 Milhares de pessoas participaram do enterro
de Vladimir Herzog.75 Poucos dias depois de sua morte, na Catedral de São Paulo, uma
missa foi rezada em sua homenagem, à qual compareceram milhares de pessoas.76
E.
Inquérito Policial Militar (IPM No. 1173-75)
126. A importante reação social à morte de Herzog fez com que, em 30 de outubro de
1975, o General Comandante do II Exército determinasse o início de um inquérito policial
militar destinado a descobrir “as circunstâncias do suicídio do jornalista Vladimir Herzog”. O
69
Dá-se o nome de “pimentinha” a uma máquina de choques elétricos, comumente conhecida na América Latina
como “bastão elétrico”.
70
Processo No. 2008.61.81.013434-2, Justiça Federal de São Paulo, Volume 2, folha 280, declarações de Rodolfo
Osvaldo Konder, de 7 de novembro de 1975 (expediente de prova, folhas 3965 a 3967); MARKUN, Paulo. Meu
querido Vlado. A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração, p. 134 e 135 (expediente de prova, folha
8794); Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folhas 3300, 3301 e 11097).
71
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 3300).
72
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folhas 1003 e 3300).
73
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 1004); Processo Nº 2008.61.81.0134342, Justiça Federal de São Paulo, Volume 3, folhas 492 e 493, Nota Oficial do Comando do II Exército.
74
Brasil. Desaparecidos Políticos, um Capítulo não Encerrado da História Brasileira. Editorial Instituto Macuco. São
Paulo: 2012 (expediente de prova, folha 7245); Declaração pericial de Jhon Dinges (expediente de prova, folha
14565). Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 635)
75
DANTAS, Audálio. As duas guerras de Vlado Herzog (expediente de prova, folhas 3825 e 3883); FIGUEIREDO,
Lucas. Lugar nenhum: militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 2015, p. 94 (expediente de prova, folha 8678); Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de
prova, folha 635)
76
Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (expediente de prova,
folha 406); Relatório da Comissão Nacional da Verdade (expediente de prova, folha 635 e 3300).
27