46
o deixa sozinho com seus próprios pensamentos, com sua própria raiva, com sua própria
vulnerabilidade, com a impossibilidade de fazer algo, simplesmente aguentando, esse é o
momento em que pode “se psicotizar”. Se esses meninos não chegaram a esse extremo é
porque, em algum momento de sua vida, suas mães ou seus pais devem haver lhes
proporcionado a estrutura básica da personalidade que impediu uma ruptura psicótica neles.
A tortura é “a negação mais flagrante da essência humana […], é a máxima corrupção
humana.” A tortura produz efeitos a longo prazo que, se não forem tratados, podem trazer
consequências à saúde mental. Estas consequências são mais profundas em meninos ou
adolescentes pela vulnerabilidade de seu psiquismo e por não terem a maturidade suficiente
em sua personalidade e em seus mecanismos de defesa para poder resistir à tortura. Outro
dos efeitos importantes que a tortura produz nos meninos é que se cria uma desconfiança
com o mundo adulto e terminam se desvalorizando a si mesmos. Alguns menores
manifestaram que às vezes tinham ideais suicidas.
Um sentimento comum é a impotência frente a semelhantes condições de vida, frente ao
constante temor à violência e à vulnerabilidade. A única alternativa que os internos tinham
era aguentar o que acontecia sem poder responder. Isso desestabiliza o equilíbrio psíquico e
afeta o funcionamento das funções psíquicas como processar conhecimentos e o uso do
raciocínio, e afeta também a capacidade de concentração e estudo.
O ambiente descrito pelos meninos que viveram no Instituto é um ambiente “psicotizante”.
Os meninos devem empregar toda sua energia psíquica em prevenir sua desintegração
psíquica. Este ambiente “gera psicopatas”. O ambiente se vê marcado pelo uso de violência
e pela aprendizagem de violência. Não há oferecimento de contextos diferentes nos quais
eles possam experimentar outros tipos de coisas.
Estas experiências não se apagam, já que permanecem na memória. Pode-se qualificar ou
descrever esta situação como uma situação de trauma prolongado e complexo, ou seja, não
é um, mas são múltiplos eventos traumáticos. Viviam em uma situação de terror e “a única
comparação com situações similares pode ser com os campos de concentração ou
sociedades que estão em guerra, onde a violência e o perigo de violência são constantes, e
vivem com o temor de que a qualquer momento possam ser atacados.”
Pode-se presumir que essa situação de trauma prolongado e complexo afetou todos os
menores que passaram pelo Instituto. As consequências traumáticas desta situação podem
ou não ter algum tipo de impacto em relação à reincidência delitiva de alguns destes
garotos, dependendo do que é oferecido a eles e de que contexto possuem fora da
penitenciária.
Além disso, “ao não terem saída”, estas emoções fortes fazem com que os meninos sejam
violentos entre eles. Nesse sentido, os guardas penitenciários não preveem que ocorram
situações de violência entre os menores. Ao contrário, castigavam-nos severamente
levando-os ao porão de tortura. Ao não haver um espaço para serem ouvidos, geram-se dois
fenômenos: um é a criação de episódios de violência entre os internos e outro a
intensificação do sentimento de solidariedade entre eles.
Os meninos que estiveram nos incêndios foram impactados, já que se viram frente à morte.
O principal impacto é o corporal, o que aumenta a desvalorização de si mesmos. Têm medo
de ter problemas em fazer parceiros, em sua vida ou em poder se casar. Todas as memórias
e todos os atos traumáticos são impressos na memória de uma maneira inapagável e
reaparecem constantemente ante muitas circunstâncias. Uma das circunstâncias é quando