18
para a luta contra a guerrilha, que haviam concluído seu treinamento com o assessoramento
e supervisão de militares estadunidenses.
45.
As operações militares contrainsurgentes provocaram um elevado custo em vidas na
população civil, e deram origem à figura do “deslocado”. A contrainsurgência, em sua forma
mais extrema, encontrava expressão num conceito ampliado de “tirar a água do peixe”, ou
seja, destruir a base de apoio da insurgência. Os habitantes de zonas em que havia uma
grande presença da FMLN “eram incorporados por suspeita à guerrilha, à qual passavam a
pertencer ou com a qual vinham a colaborar, correndo, portanto, o risco de serem
eliminados”.
46.
Firmaram-se diversos acordos entre o Governo de El Salvador e a Frente Farabundo
Martí de Libertação Nacional entre 1989 e 1992 e, finalmente, após 12 anos de conflito
armado, em 16 de janeiro de 1992, foi assinado, em Chapultepec, México, o Acordo de Paz,
que pôs fim às hostilidades, patrocinado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas.32 No
âmbito desses acordos, em 27 de abril de 1991, decidiu-se criar a Comissão da Verdade,
com o mandato de investigar os graves atos de violência ocorridos desde 1980 e elaborar
recomendações de ordem jurídica, política ou administrativa que pudessem guardar relação
com casos específicos ou assumir caráter mais genérico. A Comissão da Verdade publicou
seu relatório em 1993.
47.
A Comissão da Verdade revelou os padrões de violência durante o conflito armado,
tanto de agentes do Estado como de integrantes da FMLN. Das denúncias recebidas pela
Comissão da Verdade,33 “[m]ais de 60% do total corresponde a execuções extrajudiciais;
mais de 25%, a desaparecimentos forçados; e mais de 20% incluem denúncias de tortura”.
Quanto aos perpetradores, as denúncias atribuíram quase 85% dos casos aos agentes do
Estado, a grupos paramilitares a eles aliados e aos esquadrões da morte. Do mesmo modo,
os efetivos das Forças Armadas foram acusados em quase 60% das denúncias; os membros
dos órgãos de segurança em aproximadamente 25%; os membros das escoltas militares e
da defesa civil em aproximadamente 20%; e os integrantes dos esquadrões da morte em
mais de 10% dos casos. As denúncias registradas atribuíram aproximadamente 5% dos
casos à FMLN.
B. Período 1980-1983: “a institucionalização da violência”
48.
A Comissão da Verdade também relatou a cronologia da violência. O primeiro
período, de 1980 a 1983, no qual estão compreendidos os fatos deste caso, foi denominado
“institucionalização da violência”, sendo “[a] instauração da violência de maneira
sistemática, o terror e a desconfiança da população civil […] os traços essenciais desse
período. A desarticulação de qualquer movimento opositor ou dissidente por meio de
detenções arbitrárias, assassinatos, desaparecimento seletivo e indiscriminado de dirigentes
transformaram-se em prática comum”. Segundo a Comissão da Verdade, nesse período foi
“registrado o maior número de mortes e violações dos direitos humanos”.
49.
A esse respeito, a Comissão da Verdade observou que cerca de 50% do total das
denúncias analisadas ocorreu nos dois primeiros anos (1980 e 1981) e mais de 20% nos
32
Cf. Nações Unidas. Acordos de El Salvador, nota 30 supra, (expediente de prova, tomo IV, anexo 6 do
escrito de petições, argumentos e provas, folha 2623).
33
Embora a Comissão da Verdade tenha registrado mais de 22.000 denúncias de graves atos de violência
ocorridos em El Salvador no período de janeiro de 1980 a julho de 1991, “essas denúncias não representa[vam] a
totalidade dos atos de violência”, já que a Comissão só chegou a receber uma mostra significativa após três meses
de tomada de depoimentos.