cruzam a Terra Indígena Yanomami. A esse respeito, a representação dos
beneficiários salientou que, a partir de julho de 2023, há denúncias de que o tráfego
de aeronaves clandestinas se intensificou ainda mais no território. Segundo os
representantes, os três principais eixos de invasão aérea foram o vale do rio
Uraricoera, o vale do rio Mucajaí e a região do alto rio Catrimani. Este Tribunal
considera imprescindível que o Estado, por meio de seus diferentes órgãos e forças
de segurança, implemente um controle efetivo e constante do espaço aéreo do
território; instale bloqueios nos rios, especialmente aqueles já identificados como os
mais utilizados pelos garimpeiros ou aqueles que concentram os principais focos de
mineração ilegal, inclusive os pequenos; e crie mecanismos que garantam o
patrulhamento rotineiro dos rios. O Estado deve informar à Corte sobre a evolução
da implementação do seu “plano interministerial” para enfrentar essa situação.
142. No que diz respeito ao Povo Indígena Munduruku, a Corte alerta que, das
informações prestadas pelo Estado – muitas vezes genéricas e não atinentes apenas
ao Povo Munduruku –, não é possível identificar medidas concretas e com o nível de
detalhe que se exige para que se possa avaliar o impacto das ações empreendidas
pelo Estado.
143. Da informação prestada pelas partes, o Tribunal infere com preocupação o
aumento de 22,30% dos casos confirmados de malária nos primeiros quatro meses
de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022. A propósito, a
representação salientou que a malária voltou a ser uma preocupação para a saúde
dos Munduruku, especialmente nos povos do Alto Tapajós (rio das Tropas e rio
Kabitutu). Além disso, observou que muitos povos ainda estão sem acesso a
profissionais de saúde que realizem testes de malária, o que gera falhas no número
de notificações.
144. Do mesmo modo, são extremamente preocupantes as doenças causadas pela
poluição dos rios, em consequência da atividade garimpeira. Segundo um estudo
apresentado pelos representantes, nos primeiros meses deste ano, 99,09% dos
pacientes atendidos apresentavam níveis de mercúrio superiores aos recomendados
pela OMS e 72,72% dos indivíduos relataram algum sinal ou sintoma físico sistêmico,
dos quais 87,5% eram de origem neurológica. Igualmente preocupante é a notícia
de que os/as profissionais de saúde que atuam no território Munduruku perceberam
um aumento no número de crianças com problemas neuromotores e de crianças
nascidas com malformações cerebrais em territórios com grande concentração de
atividade de mineração ilegal. Em setembro de 2023, o Estado informou que as
equipes de saúde estariam monitorando todos os casos de contaminação de mercúrio
registrados entre a população indígena, sem especificar quantos casos foram
encontrados no Povo Munduruku, desagregados pelo menos por gênero e idade; que
danos sofreram os indígenas que apresentaram níveis significativos de
contaminação; que medidas específicas foram tomadas; como foi a evolução de casos
de contaminação ao longo do tempo e que medidas preventivas foram adotadas. A
Corte considera fundamental que o Estado preste essa informação específica.
145. No que diz respeito ao acesso a água potável, embora o Estado tenha
implementado tecnologias de acesso a água, por meio do Sistema Pluvial Multiuso de
águas pluviais e do Microssistema Comunitário de Abastecimento de Água, tenha
perfurado poços e entregado filtros comunitários Life Straw, entre outras estratégias,
a representação dos beneficiários indicou que em algumas aldeias (Sawré Aboy, Karo
Muybu, Poxo Muybu e Daje Kapapi) a água que abastece o sistema provinha de
cacimbas (escavada pelos próprios indígenas), as quais secaram, o que teria obrigado
a população a consumir a água contaminada do rio Tapajós. Do mesmo modo, os
representantes relataram dificuldades de acesso a água potável e a falta de
segurança alimentar derivada da contaminação de rios e peixes, os quais, segundo
informaram, são os maiores problemas de saúde pública enfrentados pelas
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