37 Fez muitas gestões para obter a liberdade de seu filho. De fato, falou com um advogado, que lhe disse que ia tirar seu filho em três meses, “porque ele est[ava] complicado sem razão”. Depois, o caso passou a outra advogada “dos pobres”, que não conseguiu fazer nada apesar de ter lutado juntamente com a senhora e dizia que não conseguia nada “porque o promotor arquivou o caso de [s]eu filho”. Lutou para falar com o promotor, já que uma garota havia declarado que seu filho não tinha a ver com o crime do qual era acusado. Entretanto, o promotor lhe disse: “Senhora, se quiser saber outra coisa, pode vir bater à minha porta, mas o documento de seu filho, agora, não vou ler. Está arquivado”. Seu filho nunca foi condenado. Sergio Daniel era bom, muito calado e nunca se queixava. Quando estava no Instituto ele lhe dizia que ia sair daí porque não havia feito nada e tinha fé em Deus. Ele estudava no Instituto – chegou à sexta série – e fazia um cursinho para a crisma. Antes de entrar no Instituto, seu filho não consumia drogas, mas depois de entrar, sim. Os guardas diziam que as mães levavam as drogas para eles, mas ela não ia levar “uma coisa que envenena [seu] filho ”. O incêndio aconteceu na sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000. Na quinta-feira anterior, disse a seu filho que não ia poder ir no sábado. “Mas […] no sábado o enterr[ou].” Ela ficou sabendo do incêndio pela televisão, que informou que “o primeiro falecido e[ra] Sergio Vera”, mas seu sobrenome era Vega. Foi correndo junto com seu marido até a penitenciária onde lhe disseram que seu filho estava no Instituto de Queimados. O diretor do Instituto lhes disse que seu filho não havia morrido, que estava em Areguá e que logo viria o taxi que ia levá-los para lá. Entretanto, seu filho mais velho foi ao Hospital e depois os chamou para lhes dizer que Sergio Daniel havia sido o primeiro falecido. O médico que o atendeu colocou no papel “que morreu intoxicado por fumaça”. Depois foi para sua casa esperar o corpo de seu filho. Nunca recebeu nenhum tipo de explicação nem desculpa por parte do governo. Quer saber o que aconteceu no incêndio, já que um garoto que não morreu lhe comentou que todos estavam dormindo e que quando começou o incêndio pediram muita ajuda. Não sabe se havia extintores para apagar o fogo. A torneira estava fora, no pátio, mas essa noite não tiveram água. Esse garoto lhe disse que havia sido “de propósito”. Isso “é injusto, [já que] todos somos seres humanos.” Os guardas penitenciários não estão preparados em seu país. Para estarem deveriam “ser psicólogo[s]”. Toda sua família está muito ferida. O que mais sentem é que seu filho estava no Instituto por lesões corporais leves e que não puderam conseguir sua liberdade. Sergio Daniel lhe dizia que não desejava a penitenciária nem para seu pior inimigo. Seu filho nunca lhe contou que o torturavam; entretanto, dizia-lhe que à noite levavam Sergio Daniel ao porão para torturar os que cometiam uma falta [disciplinar]; que lhes atavam os pés e os colocavam de cabeça para baixo e assim acordavam; assim os deixavam toda a noite. Um guarda disse à testemunha, em relação à disciplina, que “se há em uma cela 50 e um comete uma falta [disciplinar], castigo os 50”. Espera conseguir a justiça que não conseguiu em seu país. Ela quer a justiça para “todos os garotos que estão vivendo agora”, já que ela perdeu seu filho. Os garotos que estão vivos necessitam ser “ouvidos, porque há muitos meninos que não têm nem visitas, nem ninguém [que vá] a vê-los, e em seu[s] [processos] ninguém […] irá mexer. Porque há mães que […] abandonam seus filhos.” Quer que “exista justiça, que se cumpra[m] os direitos”.

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