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c) Testemunho de Teofista Domínguez Riveros, mãe de Sergio David Poletti
Domínguez, ex-interno do Instituto, falecido
É auxiliar de enfermagem, tem seis filhos e era mãe de Sergio David Poletti Domínguez, que
estava prestes a completar 16 anos. Um dia a polícia chamou seu filho para que
comparecesse a uma “averiguação” na delegacia. De lá foi diretamente levado ao Instituto,
onde esteve de março de 1999 até 11 de fevereiro de 2000, quando ocorreu o incêndio. Seu
filho esteve internado sem que houvesse sido proferida sentença condenatória e era
inocente. Ele tinha um advogado particular que o defendia antes e, inclusive, depois de sua
morte.
Sergio David era “contínuo” do Correio Nacional de Assunção. Era um bom garoto que
sempre que recebia seu salário levava presentes para sua irmã, porque ela era quem lavava
suas roupas. Era um bom garoto, mas saiu do centro correcional como “um selvagem”.
Em 11 de fevereiro de 2000, ligou a televisão antes de ir para o trabalho e a primeira coisa
que viu foi o incêndio do Instituto. Foi diretamente lá, onde informaram que seu filho estava
no Instituto do Queimado.
Quando chegou ao Instituto do Queimado, nenhuma mãe havia entrado, mas ela entrou
camuflada porque estava vestida de branco e ninguém sabia que era a mãe de Sergio
David. Em um dos quartos havia vários garotos e em outra sala menor havia cerca de seis
jovens e entre eles estava seu filho. Seu filho não tinha oxigênio, “não tinha nada […],
estava pedindo ajuda por causa da dor”, assim como todos os demais. Os “garotos estavam
vomitando carvão” e todos pediam água. Pensou que seu filho havia queimado todos os
dentes, de maneira que revisou sua boca. Estava todo preto, de modo que o limpou.
Ninguém lhe perguntou quem era ela porque pensavam que era uma voluntária. Perguntou
a um médico como estava seu filho, mas ninguém lhe respondia nada. Ela começou a falar
com todos os garotos ou eles falavam com ela.
Sergio David esteve consciente até as últimas horas antes de morrer, razão pela qual
conseguiu conversar com ele. Um guarda entrou ao quarto onde estavam os feridos e um
dos internos lhe disse: “Vá embora daqui, o que você quer agora? Ou você quer matar todos
nós aqui? Lá não conseguiu e querem nos matar aqui”. Ela disse em guarani ao garoto que
ele não tinha culpa e perguntou por que o tratavam assim. Seu filho e os outros seis garotos
que estavam aí conscientes lhe contaram que o incêndio foi causado por um guarda
carcerário que jogou algo e depois acendeu o fogo. Também lhe contaram que haviam
pedido ajuda para que abrissem a grade para eles e que, enquanto isso, os guardas lhes
diziam: “calem-se, deixem de gritar porque vamos disparar em vocês!” Seu filho comentou
que os internos não tinham água, que haviam fechado a passagem da água.
Sergio David faleceu dois dias depois do incêndio. Quando seu filho morreu, ela o recolheu e
o enterrou. O caixão foi levado por um cunhado que é funcionário da Justiça e Trabalho e o
resto foi pago por sua família.
Desde o momento que seu filho foi ao Instituto, ela perdeu toda sua família, já que Sergio
David precisava de atenção; já não tinha amigos nem amizades porque a dedicação
completa era para Sergio. Todos na família ficaram mal, já que choram desde a detenção de
seu filho até hoje. Até hoje não puderam recuperar tudo o que perderam com Sergio desde
sua detenção até sua morte; por isso, não podem contratar um profissional para que trate
seus outros filhos nem pode enviá-los à faculdade.