“o extermínio suprime o poder ao suprimir o objeto. Assim, há, na essência mesma do poder,
uma contradição fundamental que, propriamente falando, o impede de existir; aqueles aos
quais chamamos senhores, sempre obrigados a reforçar seu poder, (...) não são nunca senão
a perseguição de um domínio impossível de possuir, perseguição de cujos suplícios infernais a
mitologia grega oferece belas imagens.
(...) É assim que Agamémnon, que imolou a filha, revive nos capitalistas que, para manter
privilégios, aceitam, levianamente, guerras que podem arrebatar-lhes os próprios filhos. (...)
(...) O verdadeiro tema da Ilíada é a influência da guerra sobre os guerreiros e, por meio
deles, sobre todos os humanos: ninguém sabe por que sacrifica-se, e sacrifica os seus numa
guerra mortal e sem objetivo (...). Nesse antigo e maravilhoso poema já aparece o mal
essencial da humanidade: a substituição dos fins pelos meios”. 64
76.
No mesmo ensaio luminoso, Simone Weil insistia em sua advertência no sentido
de que
“nada mais fácil que divulgar um mito qualquer entre uma população. Não há que estranhar,
pois, o surgimento sem precedente na história de regimes 'totalitários'. (...) Ali, onde as
opiniões irracionais substituem as ideias, a força pode tudo. (...) Sempre que os oprimidos
quiseram construir grupos capazes de exercer uma influência real, esses grupos (...)
reproduziram em seu seio as taras do regime que pretendiam reformar ou abater, a saber, a
organização burocrática, a inversão da relação entre os meios e os fins, o desprezo do
indivíduo, a separação entre o pensamento e a ação, o caráter mecânico do pensamento
mesmo, a utilização do embrutecimento e da mentira como meios de propaganda, (...) uma
civilização que descansa na rivalidade, na luta, na guerra”.65
77.
As reflexões de 1934 dessa mulher admiravelmente lúcida, Simone Weil, são
pertinentes em relação a exemplos sucessivos de opressão ao longo das décadas
posteriores. 66. O certo é que a brutalidade esteve sempre presente nas relações
humanas, como se depreende já do Gênesis (IV.4). Esteve presente antes e depois da
criação do Estado e, com este, ampliou-se com seus recursos e seu monopólio do uso
da força (como se orgulham de dizer alguns publicitários míopes). Como menciona,
com lucidez, o Pregador, no mais breve e enigmático dos escritos do Antigo
Testamento (o belo Eclesiastes),
“Se de alguma coisa alguém diz:
'Eis aí algo de novo!',
ela já existia nas eras
que nos precederam.
Não há memória das coisas antigas,
e também não haverá memória do que há de suceder depois;
nem ficará disso memória entre aqueles que hão de vir mais tarde”.67
78.
E continua o Pregador, de maneira implacável: “Se vires na tua terra a opressão
do pobre, ou a violação do direito e da justiça, não te admires, porque o que está alto
tem acima de si outro mais alto, e sobre ambos há ainda outro mais elevado. O proveito
da terra é para todos (...)!”. 68 Essas palavras, que sobreviveram a séculos e séculos,
revestem-se de grande atualidade em nossos dias! Poderíamos, perfeitamente, tê-las
64
S. Weil, Reflexiones sobre las Causas de la Libertad y de la Opresión Social, Barcelona, Ed. Paidós/Ed.
Universidade de Barcelona, 1995 [reed.], p. 79 a 81.
65
Ibid., p. 143 e 145.
66
Inclusive as brutalidades cometidas no pavilhão 1A da Prisão peruana de Castro Castro (que alojava
cerca de 131 mulheres prisioneiras), durante a chamada “Operação Mudança 1”, de 6 a 9 de maio de 1992.
67
Capítulo 1, versículos 10 e 11.
68
Capítulo 5, versículos 8 e 9.