-47a capacidade do pavilhão era de 90. No primeiro dia dos fatos a testemunha se encontrava
no pavilhão 1A.
Depois do golpe de Estado de 5 de abril de 1992, começou a militarização do Presídio Castro
Castro. Durante o golpe de Estado foram restringidos direitos e liberdades, “inclusive não se
fazia caso aos habeas corpus”.
Às 4h30 de 6 de maio de 1992, começaram as explosões feitas por “tropas combinadas” do
Exército e da Polícia. Utilizaram “armamento longo […] de guerra”, bombas de gás
lacrimogêneo, bombas incendiárias e helicópteros de artilharia, que dispararam mísseis e
foguetes contra o pavilhão 1A. As bombas incendiárias “ardem [por dentro] e retiram o
oxigênio, [e] impedem a respiração”. O ataque também aconteceu a partir do teto e das
janelas dos outros pavilhões, onde estavam localizados os francoatiradores.
Durante o ataque bombardearam as paredes, dispararam com armas instalazzas contra as
paredes, que “são de um concreto muito resistente [e] antissísmico [e medem] 25 cm de
largura”. Também bombardearam os tetos para fazer buracos, dos quais lançavam rajadas
de submetralhadora e explosivos. Além disso, utilizaram “helicópteros de artilharia” para
disparar mísseis contra o pavilhão. A testemunha declarou que “[a] situação deixava claro
que ia[m] ficar triturados debaixo dos escombros desse pavilhão”. “Estar debaixo desse
bombardeio é como um inferno” porque tem gás lacrimogêneo que não deixa respirar, as
explosões sacodem o pavilhão, escutam-se as rajadas das metralhadoras disparando, e se
pensa “aqui vão […] matar todos nós”. Também ficaram sem luz, água e alimentação.
Segundo lhe contaram posteriormente, durante os ataques, os internos que se encontravam
no presídio por crimes comuns foram levados para o pátio onde permaneceram agrupados
no centro e vigiados.
No quarto dia de ataque, os internos optaram por sair do pavilhão 4B porque pensavam que
o pavilhão seria “triturado como ha[via] ocorrido no 1A”, e já não conseguiam suportar mais
a situação. Um grupo de internos pediu a gritos que não disparassem contra eles porque
iam sair, mas foram fuzilados. A testemunha saiu do pavilhão 4B, caminhou pela “rotunda”
e chegou à “porta de acesso”, de onde conseguiu ver que “havia […] centenas de tropas
combinadas com armamentos de guerra” e que nos morros havia soldados com armamento.
Quando ia andando viu que “a [sua] frente havia uma metralhadora de três pés”. Virou-se e
uma bala acertou-lhe as costas, outra a mão, e a palma da mão se abriu. Estava estirado
de boca para cima quando um soldado com fuzil e capuz colocou-lhe a arma na boca, o
xingou e o chutou. Pedia água porque sentia muita sede, lhe doía a mão e as costas, tinha
um “buraco” na clavícula. Aproximadamente uma hora depois, dois soldados o pegaram
pela mão que doía e o levantaram pelo braço, “como se fosse um saco de batatas” e o
jogaram em um caminhão militar onde havia outras pessoas feridas. Jogaram outras
pessoas em cima dele. Depois os levaram ao hospital da polícia.
No Hospital da Polícia costuraram sua mão de tal forma que ficou com muitas cicatrizes e na
prática não consegue movimentá-la bem. Durante o tempo em que esteve no hospital “os
médicos [lh]es disseram que não havia medicamentos para [eles]”. A Cruz Vermelha
Internacional preocupava-se de que tivessem medicamentos. Permaneceu no hospital
vigiado por três ou quatro policiais armados que não permitiam a entrada em seu quarto.
Transcorridas duas semanas, foi transferido para o hospital “Carrión”, onde permaneceu
num lugar sujo, sem janelas, com muito barulho, sem roupa, e com os ferimentos
infectados porque não lhes foram entregues os remédios que haviam sido distribuídos pela
Cruz Vermelha. A Cruz Vermelha “conseguiu entrar depois de 15 dias”. Transcorridos cerca