-48de um mês e meio foram transferidos de novo para o Presídio Castro Castro, sem roupa
nem sapatos. Como era inverno, o frio fazia com que lhes doessem mais os ossos e os
ferimentos. No Presídio Castro Castro continuaram a ser “torturados”, tocavam marchas
militares às 6h com muito volume; os espancaram; aplicaram-lhes descargas elétricas; não
lhes permitiam realizar nenhuma atividade como ler ou trabalhar; não podiam sair ao pátio;
permaneciam 24 horas nas celas de 2x1,80m sem receber a luz do sol; os alimentos que
lhes ofereciam eram sujos, inclusive com pequenas pedras; e eram obrigados a passar
entre duas filas de guardas, que lhes batiam com paus e ferros. Teve de suportar todas
essas “torturas” quando se estava recuperando do que lhe causaram os ferimentos de bala.
Permitiram as visitas dos familiares depois de seis meses do ocorrido no Presídio Castro
Castro.
Sua mãe sofreu muito e “a tensão lhe provocou câncer”, em razão do qual faleceu há dois
anos. Durante os dias do ataque sua mãe chorou muito, e se sentia muito mal ao ver que
estavam “bombardeando […] e fuzilando” a testemunha e ela não podia fazer nada.
Está cursando o quinto ano de Direito na Universidade de San Marcos. Também trabalha
como operário da construção civil. Hoje, além das lesões por causa dos disparos (que
incluem as cicatrizes), tem uma lesão no ouvido que lhe reduziu a capacidade de ouvir,
causada por uma explosão durante o ataque ao presídio. Além disso, tem problemas de
movimento na mão, que lhe trouxeram dificuldade para a realização de certos trabalhos, e
não pode levantar “completamente” o braço. Tem muitas dificuldades para ouvir uma
pessoa em uma conversação normal, e mais ainda para ouvir suas aulas.
No Peru ninguém foi indiciado e nenhuma autoridade se responsabilizou pelo que lhes
ocorreu.
4.
Lastenia Eugenia Caballero Mejía, esposa da suposta vítima Mario
Aguilar Vega e mãe das supostas vítimas Ruth e Orlando Aguilar
Caballero
Seu esposo e seu filho estavam presos no pavilhão 4B do Presídio Castro Castro e sua filha,
no pavilhão 1A desse presídio. Inteirou-se pelo noticiário do que estava ocorrendo no
presídio e se dirigiu ao local acompanhada de sua neta. Assim que chegou, observou
muitos militares e policiais que cercavam o centro penitenciário. Ouviu disparos e
explosões, e ninguém lhe deu informação sobre os internos. No terceiro dia, a situação foi
mais grave, visto que o número de militares aumentou, e continuavam as explosões e
disparos. Os familiares foram maltratados pelos militares, que lhes diziam que fossem
embora e que disparavam e lançavam bombas de gás lacrimogêneo contra eles, além dos
jatos de água. Além disso, também foram vítimas de disparos feitos por civis.
No terceiro dia dos fatos, ao não saber o que poderia ter acontecido com seus familiares,
dirigiu-se ao necrotério para buscar informação. Segundo ela, o necrotério “era um
verdadeiro açougue”. Para a identificação dos familiares, lhe mostraram fotos de pessoas
que estavam “despedaçadas”. Havia vermes no chão e um cheiro horrível, bem como
pessoas “jogadas no chão como se fossem animais”. Além disso, o pessoal do necrotério
realizava as autópsias diante dos familiares dos cadáveres, como se não se importasse que
eles vissem o processo. Foi “uma dor muito imensa” para a testemunha, que lhe “ficou
estampada como uma marca muito grande”. Seus filhos e seu esposo não estavam no
necrotério, por esse motivo ela voltou ao presídio.