18. Gabriel Sales Pimenta foi um advogado e defensor de direitos humanos. No início de sua carreira, após ser aprovado em segundo lugar num concurso nacional, foi trabalhar em Brasília. Logo depois, deixou o emprego financeiramente estável para trabalhar junto aos movimentos sociais do campo em prol dos direitos dos trabalhadores rurais – primeiramente na cidade de Porto Nacional (estado de Goiás), depois em Conceição do Araguaia (estado do Pará), e finalmente em Marabá (estado do Pará) 18. Enquanto advogado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Marabá, Gabriel Sales Pimenta defendeu trabalhadores rurais da região de Pau Seco em litígios contra os fazendeiros Nelito e Marinheiro. Por essa atuação, ficou conhecido como o primeiro advogado na história de Marabá a conseguir cassar uma liminar que havia permitido a expulsão dos posseiros de terra em uma área reivindicada por fazendeiros 19 . Isso se deu por meio de um Mandado de Segurança impetrado por Gabriel Sales Pimenta e pelo advogado Benedito Monteiro em prol de José Ribamar Nonato de Sousa, Jovelino Nonato de Paula, Paulo Nonato de Paula e José Francisco dos Santos, perante o Tribunal de Justiça do Pará, no qual foi defendido que a concessão da ordem de despejo sem uma audiência prévia para ouvir os trabalhadores representava um ato ilegal e abusivo20. 2. As ameaças feitas aos trabalhadores e a Gabriel Sales Pimenta 19. Em dezembro de 1981, os posseiros retornaram a Pau Seco. Segundo o depoimento de Antonio Francisco da Silva, as ameaças continuaram contra os trabalhadores, e agora também contra Gabriel. Manoel Cardoso Neto e José Pereira da Nóbrega teriam inclusive afirmado que o matariam antes de 4 de agosto de 1982, data em que outra audiência no Tribunal de Justiça sobre a questão da posse de Pau Seco havia sido designada21. Outros elementos confluem para o mesmo cenário de constantes ameaças aos trabalhadores e ao seu advogado. 20. Em novembro de 1981, foi instaurado um inquérito policial para investigar Manoel Cardoso Neto pela tentativa de homicídio do posseiro Francisco Pereira da Silva 22 . No mesmo ano, a casa de João Lourenço (conhecido como “João Cupu”), então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, teria sido invadida por José Pereira da Nóbrega23. A imprensa também noticiou que João Cupu vinha recebendo ameaças de Manoel Cardoso Neto 24 . Em novembro de 1981, João Cupu teria desaparecido da cidade sem que qualquer pessoa soubesse de seu paradeiro25. O presidente que assumiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá logo depois, Antônio Francisco da Silva, também teria recebido ameaças contínuas 26. Ao depor perante autoridades judiciais, Antônio Francisco da Silva afirmou que havia sido expressamente ameaçado de morte por Manoel Cardoso Neto e José Pereira da Nóbrega 27 . Além disso, relatou que um trabalhador contratado por ele foi “avisado” por indivíduos armados que ele seria assassinado 28. Outrossim, no caminho de sua casa, Antônio Francisco teria encontrado uma armadilha semelhante à que teria sido utilizada para matar outro trabalhador 27. Ronaldo Barata, Inventário da Violência no Campo: crime e impunidade no campo paraense (1980-1989), CEJUP, Belém, 1995, Episódio nº 32.81: Bispo de Marabá relata violência contra posseiros (Jornal O Estado de S. Paulo), página 117. Escrito da parte peticionária de 27 de abril de 2018. 18 Anexo 02. Tribunal de Justiça do Estado do Pará, Processo n. 0007348-91.2007.814.0028, Depoimento de José Batista Gonçalves Afonso. Escrito da parte peticionária de 27 de abril de 2018; Anexo I.18. Ofício da Associação Nacional dos Advogados dos Trabalhadores na Agricultura - ANATAG/15/82 de 21 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 19 Anexo 03. Jornal Opinião, “Marabá tem a marca de Gabriel”, 23 e 24 de julho de 1998. Escrito da parte peticionária de 27 de abril de 2018; Anexo II.6. Termo de Declaração de Antônio Francisco da Silva de 19 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 20 Anexo I.11. Mandado de segurança de 20 de novembro de 1981. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 21 Anexo II.6. Termo de Declaração de Antônio Francisco da Silva de 19 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 22 Anexo I.12. Portaria da Delegacia de Polícia de Marabá de 9 de novembro de 1991. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 23 Anexo II.5. Termo de Declaração de Risomar Daniel Castro de 21 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 24 Anexo I.13. A Província do Pará, “Advogado Morto por Encomenda”, 20 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 25 Anexo I.13. A Província do Pará, “Advogado Morto por Encomenda”, 20 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006. 26 Anexo 27. Ronaldo Barata, Inventário da Violência no Campo: crime e impunidade no campo paraense (1980-1989), CEJUP, Belém, 1995, Episódio nº 20.82: Presidente do STR de Marabá está ameaçado de morte (Fonte, Jornal A Província do Pará), página 139. Escrito da parte peticionária de 27 de abril de 2018. 27 Anexo II.6. Termo de Declaração de Antônio Francisco da Silva de 19 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006 (relatando que José Pereira da Nóbrega fazia gestos de quem queria tirar uma arma e dizia que iria adentrar na casa em que Antônio Francisco estava para quebrar sua cabeça). 28 Anexo II.6. Termo de Declaração de Antônio Francisco da Silva de 19 de julho de 1982. Petição inicial de 8 de novembro de 2006 (relatando que, em maio de 1982, contratou um trabalhador, e quando este estava fazendo seu serviço, foi procurado por desconhecidos armados com facas, revólveres 38, uma Espingarda calibre 20 e uma arma de repetição. Esses desconhecidos teriam dito que dentro de um ano ou dois matariam Antônio). 5

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