sobreviventes, 65 que começou a aparecer a verdade sobre o suscedido, ainda que, tanto no
plano nacional como internacional, houve tentativas de desacreditar e desqualificar a
informação proporcionada pelos jornalistas Raymond Bonner e Alma Guillermoprieto como
“propaganda da FMLN”. 66
75.
Tal como foi reconhecido pelo Estado, ao contrário, estes jornalistas proporcionaram
a primeira evidência de que o exército salvadorenho “havia incorrido em um brutal
assassinato de civis”, afirmando que mais de 700 camponeses teriam sido assassinados,
principalmente crianças, mulheres e idosos. Por sua vez, o governo dos Estados Unidos da
América assinalou que “não havia provas para confirmar que as forças governamentais
haviam massacrado civis nas zonas de operação”, agregando que “não havia provavelmente
mais de 300 pessoas que viviam em El Mozote ao momento do massacre”. A informação
disponível indica que estas versões se basearam em um relatório preparado pela Embaixada
estadunidense em San Salvador, sem ter visitado o lugar dos fatos. 67 No plano nacional,
“um porta voz do exército […] assegurou que as versões sobre um massacre cometido por
efetivos militares eram ‘totalmente falsas’ e que haviam sido inventadas pelos
subversivos”. 68
76.
Nesta mesma linha, cabe destacar que o Estado não realizou investigações de
qualquer natureza em relação aos massacres antes de 1990 69 (pars. 251 e 252 infra). As
escavações e exumações dos restos realizadas a partir do ano 1992 – quando já se
encontrava em funcionamento a Comissão da Verdade – por parte da Equipe Argentina de
Antropologia Forense (EAAF), cujo início foi gravemente dilatado e obstaculizado, 70
apagaram qualquer resquício de dúvida sobre a verdade do ocorrido e mostraram
evidências contundentes sobre um dos maiores massacres de civis ocorridos no continente
americano 71 (pars. 231 e 232 infra).
65
Cf. Relatório da Comissão da Verdade para El Salvador: De la locura a la esperanza, La guerra de 12 años
en El Salvador, 1992-1993 (expediente de prova, tomo II, anexo 1 à submissão do caso, folha 1197); Reportagem
publicada em The New York Times, em 27 de janeiro de 1982, intitulada “Massacre of Hundreds Reported in
Salvador Village” (expediente de trâmite perante a Comissão, tomo II, folha 874) e Reportagem publicada em The
Washington Post, em 27 de janeiro de 1982, intitulada “Salvadoran Peasants Say Army Killed Hundreds in
Community” (expediente de trâmite perante a Comissão, tomo II, folhas 873 e 875).
66
Cf. Reportagem publicada em The Washington Post em 22 de outubro de 1992, intitulada “Skeletons
Verify Killing of Salvadoran Children: Army Battalion Accused in 1981 Massacre” (expediente de prova, tomo II,
anexo 13 à submissão do caso, folhas 1555 a 1557) e Prólogo por Aryeh Neier em: Pedro Linger Gasiglia, El
Mozote. La Masacre 25 años despues. 1ª Ed., Buenos Aires, 2007 (expediente de prova, tomo VIII, anexo 4 ao
escrito de petições, argumentos e provas, folhas 5609 e 5615).
67
No mesmo sentido, ver Disco compacto que contém o vídeo “Denial”, intitulado em espanhol “La fiera está
con todas sus garras, la Massacre de El Mozote y lugares vizinhos” (expediente de prova, tomo X, anexo 10.3 ao
escrito de petições, argumentos e provas, folha 6698).
68
Relatório do IDHUCA. Considerações sobre a impunidade a propósito do massacre de El Mozote, Processo:
número 451, 7 de novembro de 1990 (expediente de prova, tomo II, anexo 2 à submissão do caso, folha 1290).
69
Cf. Relatório da Secretaria do Segundo Juízo de Primeira Instância de San Francisco Gotera, Departamento
de Morazán, de 19 de abril de 1991 (expediente de prova, tomo III, anexo 23 à submissão do caso, folha 1772).
70
Cf. Perícia conjunta prestada perante agente dotado de fé pública (affidavit) por Luis Fondebrider,
Mercedes C. Doretti e Silvana Turner em 18 de abril de 2012 (expediente de prova, tomo XVII, affidavits, folhas
10306 a 10312). Ver também, relatório interno do Escritório de Tutela Legal da Arquidiocese de 27 de março de
1992 (expediente de prova, tomo II, anexo 10 à submissão do caso, folhas 1537 a 1539) e Comunicado do
Escritório de Tutela Legal da Arquidiocese de San Salvador emitido em 8 de abril de 1992 (expediente de prova,
tomo II, anexo 11 à submissão do caso, folhas 1545 a 1549).
71
Cf. Relatório da Comissão da Verdade para El Salvador: De la locura a la esperanza, La guerra de 12 años
en El Salvador, 1992-1993 (expediente de prova, tomo II, anexo 1º à submissão do caso, folha 1197); relatório de
AFP escrito por Carlos Mario Márquez em 13 de novembro de 1991 intitulado “Igreja exige investigar brutal
matança de camponeses ocorrida em 1981” (expediente de prova, tomo II, anexo 14, à submissão do caso, folhas
1559 a 1560); Reportagem publicada em The Washington Post, em 22 de outubro de 1992, intitulada “Skeletons
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