gritos de uma criança que chorava e pedia por sua mãe”, quando “um militar ordenou:
‘[a]nda e mata esse bastardo que não foi morto direito’, e um pouco depois se ouviu que
lhe dispararam e já não se ouviu mais”. 105 A maioria das crianças foi assassinada no interior
do convento, na cabana localizada junto à igreja, a qual foi logo queimada. 106 Mais de 95%
dos 143 indivíduos identificados correspondem a crianças, sendo a média de idade de 6
anos. 107 As pessoas encontradas no convento morreram ali ou seus corpos foram
depositados neste lugar quando ainda conservavam seus tecidos flácidos. 108 Deste modo,
conclui-se que, pelo menos, uma certa quantidade de pessoas foi assassinada no convento
e queimada no mesmo lugar dada “a grande quantidade de sinais de fogo em todos os
níveis da casa”. 109
95.
Tal como foi reconhecido pelo Estado e estabelecido no relatório do Escritório de
Tutela Legal da Arquidiocese, 110 os corpos de todas as pessoas assassinadas foram
empilhados em várias casas, que depois foram queimadas pelos soldados. Do mesmo modo,
atearam fogo à igreja, onde havia pessoas lesionadas ainda com vida, pois foi possível ouvir
seus gritos e lamentos.
96.
Sobreviventes dos massacres que haviam se escondido no morro e outras pessoas
ou familiares indicaram ter voltado a El Mozote depois do massacre em busca de familiares
que viviam ali, encontrando cadáveres de crianças, mulheres e idosos, muitos deles
carbonizados, degolados ou desmembrados pelos animais, bem como casas queimadas. 111
Gotera em 26 de outubro de 1990 (expediente de prova, tomo II, anexo 21 à submissão do caso, folha 1581); e
Escritório de Tutela Legal da Arquidiocese de San Salvador, El Mozote. Lucha por la verdad y la justicia: Masacre a
la Inocencia. San Salvador, El Salvador, 2008, pp. 57 a 58 (expediente de prova, tomo VIII, anexo 2 ao escrito de
petições, argumentos e provas, folhas 5302 a 5303). Ver também, Ata de inspeção judicial realizada no povoado
de El Mozote, jurisdição de Meanguera, Departamento de Morazán, em 27 de maio de 1992 (expediente de prova,
tomo III, anexo 23 à submissão do caso, folhas 1957 a 1958).
105
Declaração juramentada prestada por Rufina Amaya Viúva de Márquez ao Escritório de Tutela Legal da
Arquidiocese em 10 de outubro de 1990 (expediente de prova, tomo II, anexo 20 à submissão do caso, folha
1577).
106
Cf. Relatório arqueológico, Povoado de El Mozote, Sítio 1, realizado pela Equipe Argentina de Antropologia
Forense (EAAF), dezembro de 1992 (expediente de prova, tomo IV, anexo 23 à submissão do caso, folha 2928).
Ver também, Ata de inspeção judicial realizada no povoado de El Mozote, jurisdição de Meanguera, Departamento
de Morazán, em 27 de maio de 1992 (expediente de prova, tomo III, anexo 23 à submissão do caso, folha 1957).
107
Cf. Relatório da investigação forense do povoado de El Mozote, Sítio 1, realizado por Clyde C. Snow,
Robert H. Kirschner, Douglas D. Scott e John J. Fitzpatrick de 10 de dezembro de 1992 (expediente de prova, tomo
VI, anexo 24 submissão ao caso, folha 4022) e Ofício de Clyde C. Snow, Robert H. Kirschner, Douglas D. Scott e
John J. Fitzpatrick, dirigido ao Segundo Juízo de Primeira Instância de San Francisco Gotera, de 10 de dezembro de
1992 (expediente de prova, tomo V, anexo 23 à submissão do caso, folha 3525).
108
Cf. Relatório arqueológico, Povoado de El Mozote, Sítio 1, realizado pela Equipe Argentina de Antropologia
Forense (EAAF), dezembro de 1992 (expediente de prova, tomo IV, anexo 23 à submissão do caso, folha 2931).
109
Relatório arqueológico, Povoado de El Mozote, Sítio 1, realizado pela Equipe Argentina de Antropologia
Forense (EAAF), dezembro de 1992 (expediente de prova, tomo IV, anexo 23 à submissão do caso, folha 2942).
110
Cf. Escritório de Tutela Legal da Arquidiocese de San Salvador, El Mozote. Lucha por la verdad y la
justicia: Masacre a la Inocencia, San Salvador, El Salvador, 2008, pp. 58 a 59 (expediente de prova, tomo VIII,
anexo 2 ao escrito de petições, argumentos e provas, folhas 5302 a 5303). Ver também Declaração juramentada
prestada por Rufina Amaya Viúva de Márquez ao Escritório de Tutela Legal da Arquidiocese em 10 de outubro de
1990 (expediente de prova, tomo II, anexo 20 à submissão do caso, folha 1576) e Declaração testemunhal
prestada por Rufina Amaya perante o Segundo Juízo de Primeira Instância de San Francisco Gotera em 30 de
outubro de 1990 (expediente de prova, tomo III, anexo 23 à submissão do caso, folhas 1660 a 1665).
111
Cf. Declaração testemunhal prestada por Juan Bautista Márquez perante o Segundo Juízo de Primeira
Instância de San Francisco Gotera em 30 de outubro de 1990 (expediente de prova, tomo III, anexo 23 à
submissão do caso, folha 1658); Declaração de ofendido prestada por Juan Bautista Márquez perante o Segundo
Juízo de Primeira Instância de San Francisco Gotera em 11 de março de 1991 (expediente de prova, tomo III,
anexo 23 à submissão do caso, folhas 1749 a 1750); Declaração prestada perante agente dotado de fé pública
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