e a outras funções socioculturais, o que pode expô-los a condições de vida precárias, ou
desumanas, a maior vulnerabilidade diante de doenças e epidemias, bem como submetê-los a
situações de desproteção extrema, que podem implicar em várias violações de seus direitos
humanos, além de ocasionar-lhes sofrimento e prejudicar a preservação de sua forma de vida,
costumes e idioma.161
B.2
A relação especial do Povo Sarayaku com seu território
148. Para determinar a existência da relação dos povos e comunidades indígenas com suas
terras tradicionais, a Corte estabeleceu: i) que ela pode expressar-se de diferentes maneiras, de
acordo com o povo indígena em questão e as circunstâncias concretas em que se encontre; e ii)
que a relação com as terras deve ser possível. Algumas formas de expressão dessa relação
poderiam incluir o uso ou presença tradicional, por meio dos laços espirituais ou cerimoniais;
assentamentos ou cultivos esporádicos; formas tradicionais de subsistência, como caça, pesca,
ou colheita sazonal ou nômade; uso de recursos naturais ligados a seus costumes ou outros
elementos característicos de sua cultura.162 O segundo elemento implica que os membros da
comunidade não se vejam impedidos, por causas alheias à sua vontade, de realizar as atividades
que revelam a persistência da relação com suas terras tradicionais.163
149. No presente caso, a Corte constata que não está em dúvida a propriedade comunal do
Povo Sarayaku sobre seu território, cuja posse exerce de forma ancestral e imemorial, como foi
expressamente reconhecido pelo Estado na adjudicação, realizada em 12 de maio de 1992 (par.
61 supra). Sem prejuízo do exposto, além do que se salientou na parte dos fatos (pars. 51 a 57
supra), a Corte considera pertinente destacar o profundo laço cultural, imaterial e espiritual que
a comunidade mantém com seu território, para compreender, de maneira mais plena, os danos
provocados no presente caso.
150. O senhor Sabino Gualinga, Yachak de Sarayaku, declarou durante a audiência que
“Sarayaku é uma terra viva, é uma selva vivente; aí existem árvores e plantas medicinais, e
outros tipos de seres”.164 Anteriormente, havia declarado:
No subsolo, ucupacha, assim como aqui, habita gente. Há povos bonitos que estão lá embaixo, tem
árvores, lagos e montanhas. Algumas vezes escutam-se portas fechando nas montanhas, essa é a
presença dos homens que moram lá... O caipacha é onde vivemos. No jahuapacha vive o poderoso,
antigo sábio. Aí tudo é plano, é bonito... Não sei quantos pachas existem em cima, onde estão as
nuvens é um pacha, onde estão a lua e as estrelas é outro pacha, mais acima disso, existe outro
pacha onde há uns caminhos feitos de ouro, depois outro pacha, onde cheguei, que é um planeta de
flores, onde vi um lindo beija-flor que estava bebendo o mel das flores. Até aí cheguei, não pude ir
mais além. Todos os antigos sábios estudaram para tentar chegar ao jahuapacha. Sabemos que o
deus está aí, mas não conseguimos chegar até lá.165
Cf. Caso da Comunidade Indígena Sawhoyamaxa Vs. Paraguai, par. 73.61 a 73.74; e Caso Xákmok Kásek
Vs. Paraguai, par. 205, 207 e 208.
161
Cf. Caso da Comunidade Indígena Yakye Axa Vs. Paraguai. Mérito, Reparações e Custas, par. 154; e Caso
Xakmok Kasek Vs. Paraguai, par. 113.
162
Cf. Caso da Comunidade Indígena Sawhoyamaxa Vs. Paraguai, par. 132; e Caso Xákmok Kásek Vs.
Paraguai, par. 113.
163
Depoimento prestado por Sabino Gualinga perante a Corte durante a audiência pública realizada em 6 de
julho de 2011.
164
165
FLACSO, Sarayaku: el Pueblo del Cénit, p. 96, (expediente de prova, tomo 11, folha 6.678).
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