Essa “socialização e contato” foi realizada precisamente pela mesma empresa que pretendia
realizar a extração petrolífera e, por isso, tentava negociar a entrada no território.
189. Durante a visita da Delegação da Corte ao território Sarayaku, ao aceitar sua
responsabilidade neste caso, o Estado reconheceu que não havia sido devidamente realizado
um processo de consulta prévia (par. 23 supra), ou seja, o Estado não só reconheceu, desse
modo, que não realizou a consulta, mas que, ainda que se aceitasse a possibilidade de que esse
processo de consulta possa ser delegado a terceiros particulares, o Estado tampouco informou
que tipo de medida havia adotado para observar, fiscalizar ou monitorar o processo ou dele
participar e, desse modo, garantir a salvaguarda dos direitos do Povo Sarayaku.
190. Além disso, membros dos Sarayaku declararam que houve presença militar em seu
território durante as incursões da empresa CGC,251 e que essa presença tinha por objetivo
garantir os trabalhos da companhia frente a sua oposição. Durante a audiência, o Estado
questionou que o Exército houvesse entrado com o objetivo de militarizar o território Sarayaku.
191. Não foi questionado que na zona do Bloco 23 operasse a Brigada da Selva252 nº 17 e que,
especificamente ao redor dos Sarayaku, tivessem sido instaladas quatro bases militares, a
saber, em Jatún Molino, Shaimi, Pacayaku e Pozo Landa Yaku.253 A testemunha Ena Santi, ao
referir-se aos “Acampamentos de Paz e Vida”, declarou durante a audiência pública que o motivo
por que criaram esses acampamentos foi o fato de que se haviam inteirado de que “estavam
subindo militares de Montalvo [… e tinham] muito medo de que provocassem dano a [seus]
esposos, de que os matassem, e por isso, ficamos aí”.254 A testemunha Marlon Santi, que esteve
nos “Acampamentos de Paz e Vida”, declarou durante a audiência pública que “a empresa
petrolífera tinha dois tipos de segurança: uma denominada segurança privada, feita por uma
empresa de segurança privada, Jaraseg, e outra que era a segurança pública, a cargo do
Exército equatoriano e da Polícia Nacional, em conjunto”.255 Esses depoimentos são apoiados
por imagens tomadas por membros dos
Cf. Depoimento prestado perante notário público, por José María Gualinga Montalvo. em 27 de junho de
2011 (expediente de prova, tomo 19, folha 10.026). Ver também depoimento prestado perante notário público, por
Gloria Berta Gualinga Vargas, em 27 de junho de 2011 (expediente de prova, tomo 19, folha 10.038); e depoimento
prestado por Ena Santi, perante a Corte, durante a audiência pública realizada em 6 de julho de 2011.
251
Cf. Defensoria Pública da Província de Pastaza. Resolução de 10 de abril de 2003 (expediente de prova,
tomo 8, folha 4.868).
252
O Ministério de Energia e Minas informou que durante uma reunião, realizada em 3 e 4 de fevereiro de 2003,
no Povoado de Sarayaku, resolveu-se “[i]mpedir a presença de militares e policiais nos territórios dos Sarayaku”.
Relatório do Ministério de Energia e Minas sobre as atividades realizadas no Bloco 23 (expediente de prova, tomo 8,
folha 4.786); Mapa “de cerco petromilitar” elaborado pelo Centro de Informação Socioambiental de Pastaza
(expediente de prova, tomo 9, folha 4.970); Defensoria Pública da Província de Pastaza. Resolução de 10 de abril de
2003 (expediente de prova, tomo 8, folha).
253
Diante da pergunta do Agente do Estado quanto a se os viu, diretamente, ou só tinha referências, Ena Santi
respondeu, “eu não venho aqui para dizer mentiras […] Eu vi, com meus próprios olhos. Não é o que me contou meu
esposo. Eu estive aqui, sustentando [o] meu bebê […] Eu estive lá. Por isso venho dar meu depoimento”. Depoimento
prestado por Ena Santi, perante a Corte, durante a audiência pública realizada em 6 de julho de 2011.
254
Depoimento prestado por Marlon René Santi Gualinga perante a Corte, durante a audiência pública
realizada em 6 de julho de 2011.
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