multicultural, pluralista e democrática.288 Isso implica a obrigação dos Estados de garantir aos
povos indígenas que sejam devidamente consultados sobre assuntos que influenciam, ou
podem influenciar, sua vida cultural e social, de acordo com seus valores, usos, costumes e
formas de organização. Nesse sentido, a Convenção nº 169 da OIT reconhece as aspirações
dos povos indígenas de “assumir o controle de suas próprias instituições e formas de vida e seu
desenvolvimento econômico, e manter e fortalecer suas identidades, línguas e religiões, dentro
do âmbito dos Estados onde moram”.289
218. No presente caso, não se questionou o fato de que a empresa afetou zonas de alto valor
ambiental, cultural e de subsistência alimentar dos Sarayaku. Assim, em julho de 2003, a CGC
destruiu, pelo menos, um sítio de especial importância na vida espiritual dos membros do Povo
Sarayaku, no terreno do Yachak Cesar Vargas, a saber, o local denominado “Pingullu” (par. 104
supra). Para os Sarayaku, a destruição de árvores sagradas por parte da empresa, como a
árvore “Lispungo”, significou uma violação de sua cosmovisão e crenças culturais.290 Tampouco
foi questionado que a entrada de helicópteros destruiu parte da denominada Montaña Wichu
kachi, ou “saladero de loras” (par. 105 supra), fazendo com que, na cosmovisão do Povo, os
espíritos donos desse lugar sagrado fossem embora, ocasionando a esterilidade do lugar que, por
sua vez, é associada pelos Sarayaku à esterilidade material do lugar e à fuga permanente dos
animais dessa área até que a espiritualidade do lugar seja restaurada.291 Os trabalhos da
petrolífera ocasionaram a suspensão, em alguns períodos, de atos e cerimônias ancestrais
culturais do Povo Sarayaku, tais como a Uyantsa, sua festa mais importante que acontece
anualmente em fevereiro, o que afetou a harmonia e a espiritualidade da comunidade.292
Alegou-se também que a linha sísmica passou perto de lugares sagrados utilizados para
cerimônias de iniciação dos jovens na idade adulta (par. 105 supra). Desse modo, a paralisação
das atividades cotidianas do povo e a dedicação dos adultos à defesa do território teve
impacto no ensino às crianças e
A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, de 2007, amplamente aceita ao ter
sido adotada no órgão respectivo com a assinatura de 143 Estados (inclusive o Equador), contempla o direito desses
povos de determinar livremente sua condição política, a buscar livremente seu desenvolvimento econômico, social e
cultural, a participar da adoção das decisões que os afetem, e a participar plenamente, caso assim queiram, da vida
política, econômica, social e cultural do Estado (artigos 3, 4, 5, 18, 19, 20, 23,32, 33 e 34). No caso específico do
Equador, esse reconhecimento é tão claro que hoje sua própria Constituição de 2008 reconhece o direito à
autodeterminação de diversas formas, entre outras, ao declarar que as comunas, comunidades, povos e
nacionalidades indígenas têm direito a “manter, desenvolver e fortalecer livremente sua identidade, sentido de
pertencimento, tradições ancestrais e formas de organização social, motivo por que a Constituição garante o respeito
e a promoção dos costumes e identidade dos povos indígenas em todas as ordens da vida” e, no caso dos “povos em
isolamento voluntário”, o Estado “deverá adotar medidas para garantir suas vidas, fazer respeitar sua
autodeterminação e vontade de permanecer no isolamento, e tomar medidas para a observância de seus direitos”.
288
289
Convenção nº 169 da OIT. Considerando quinto.
O Yachak Don Sabino Gualinga declarou: “Num local que se chama Pingullo eram as terras do senhor Cesar
Vargas, aí vivia com suas árvores, aí estava tecida como fios a forma como ele podia curar, quando derrubaram essa
árvore de Lispungo lhe causaram muita tristeza (…). Quando derrubaram essa árvore grande de Lispungo que ele
tinha como fios, se entristeceu muito e morreu sua esposa e depois morreu ele, também morreu um filho, depois
outro filho e agora só ficaram duas filhas mulheres. (Depoimento prestado por don Sabino Gualinga perante a Corte
Interamericana de Direitos Humanos durante a audiência pública realizada em 6 de julho de 2011).
290
César Santi afirmou: ‘‘A Companhia há dois meses passou por aqui com a linha sísmica e, agora, já não há
nem pássaros, foi-se o dono, o Amazanga, porque quando o dono vai-se, todos os animais vão-se… Como se evitou
que os helicópteros continuassem vindo, se deixamos um bom tempo tranquilo talvez os animais voltem’’. FLACSO,
Sarayaku: el Pueblo del Cénit, folhas 6.627 e ss.
291
Mediante as atividades da festa renovam-se o vínculo com o território e os laços sociais. Volta-se às áreas de
recreio (purinas) e às áreas de caça do prioste, e reforça-se a posse dessas áreas ao território. Além disso, segundo
os membros da comunidade, a festa dos Sarayaku caracteriza-se pela intervenção de todos os Kurakas, além das
autoridades e líderes, e os yachak que visitam as casas da festa para dispor e transmitir a paz e o respeito, e que não
ocorram conflitos. FLACSO. Sarayaku: el Pueblo del Cénit, folhas 6.672 a 6.676. Ver também declarações de Simón
Gualinga e Jorge Malaver, Autoavaliação, folhas 6.588 e ss.
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