B.8
Direito de circulação e de residência
228. Alegou-se uma série de situações em que terceiros ou, inclusive, agentes estatais,
dificultaram, ou impediram, a passagem de membros dos Sarayaku pelo rio Bobonaza.298 É
evidente que o Estado teve conhecimento de situações que afetaram a livre circulação de
membros do Povo Sarayaku pelo rio. No entanto, não foi apresentada prova suficiente para
analisar tais fatos em conformidade com o artigo 22 da Convenção.
229. Por outro lado, efetivamente o fato de que tenham sido disseminados explosivos de
pentolite no território do Povo Sarayaku implicou uma restrição ilegítima de circular, realizar
atividades de caça e tradicionais em determinados setores de sua propriedade, pela evidente
situação de risco criada para sua vida e integridade. Entretanto, os efeitos dessa situação foram e
serão analisados em relação ao direito à propriedade comunal e à consulta prévia, bem como aos
direitos à vida e à integridade pessoal (pars. 244 a 249 infra).
B.9
Liberdade de pensamento e de expressão, direitos políticos e direitos
econômicos, sociais e culturais
230. Quanto ao exposto pela Comissão Interamericana e pelos representantes sobre a alegada
violação dos artigos 13, 23 e 26 da Convenção, a Corte concorda com a Comissão quanto a que,
em assuntos como o presente, o acesso à informação é vital para um adequado exercício do
controle democrático da gestão estatal a respeito das atividades de exploração e extração dos
recursos naturais no território das comunidades indígenas, um assunto de evidente interesse
público.299 No entanto, a Corte considera que, no presente caso, os fatos foram suficientemente
analisados, e as violações conceituadas, de acordo com os direitos à propriedade comunal, à
consulta e à identidade cultural do Povo Sarayaku, nos termos do artigo 21 da Convenção, em
relação aos artigos 1.1 e 2 do mesmo instrumento, razão pela qual não se pronuncia sobre a
alegada violação daquelas normas.
B.10 Conclusão
231. Em oportunidades anteriores, em casos relativos a comunidades ou povos indígenas e
tribais, o Tribunal declarou violações em detrimento dos integrantes ou membros das
comunidades e povos indígenas ou tribais.300 Entretanto, a legislação internacional relativa a
povos e comunidades indígenas ou tribais reconhece direitos aos povos como sujeitos coletivos
do Direito Internacional e não unicamente a seus membros.301 Tendo em vista que
Com efeito, consta que ante determinados fatos alegados pelos Sarayaku, em 27 de novembro de 2002, o
Defensor Público dispôs, como medida cautelar, que “nenhuma pessoa, nem autoridade, ou funcionário, poderá
impedir o livre trânsito, circulação, navegação e intercomunicação dos membros pertencentes aos Saraya[k]u” (par.
86 supra).
298
O artigo 9, da Carta Democrática Interamericana, aprovada na primeira sessão plenária, realizada em 11 de
setembro de 2001, dispõe que “a promoção e proteção dos direitos humanos dos povos indígenas […], contribu[i]
para o fortalecimento da democracia e a participação do cidadão”.
299
Cf. Caso da Comunidade Mayagna (Sumo) Awas Tingni Vs. Nicarágua; Caso da Comunidade Moiwana Vs.
Suriname. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas; Caso da Comunidade Indígena Yakye Axa Vs.
Paraguai. Mérito, Reparações e Custas; Caso da Comunidade Indígena Sawhoyamaxa Vs. Paraguai; Caso do Povo
Saramaka Vs. Suriname. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas, e Caso da Comunidade Indígena
Xakmok Kasek Vs. Paraguai.
300
Assim, por exemplo, a Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos Indígenas, de 2007,
estabelece, em seu artigo 1, que: “Os indígenas têm direito, a título coletivo ou individual, ao pleno desfrute de todos
os direitos humanos e liberdades fundamentais reconhecidos pela Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal
dos Direitos Humanos e o direito internacional dos direitos humanos”. O artigo 3.1 da Convenção no 169
301
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