187. Em suma, para a Corte, as declarações recebidas denotam situações que se
caracterizam como deslocamentos forçados e que correspondem, em primeiro lugar, a
deslocamentos internos, 265 isto é, dentro do território do mesmo Estado, deslocamentos que
em alguns casos levaram as vítimas posteriormente a outros países. A prova indica que a
maioria das pessoas que cruzou a fronteira em busca de proteção internacional ou de
refúgio 266 o fez à República de Honduras, permanecendo principalmente nos acampamentos
de refúgio de Colomancagua.
188. Por outro lado, em concordância com a comunidade internacional, este Tribunal
reafirma que a obrigação de garantia para os Estados de proteger os direitos das pessoas
deslocadas implica não apenas no dever de adotar medidas de prevenção, mas também de
prover as condições necessárias para um retorno digno e seguro 267 a seu lugar de
residência habitual ou a seu reassentamento voluntário em outra parte do país. Para isso,
deve-se garantir sua participação plena no planejamento e gestão de seu retorno ou
reintegração. 268
189. As declarações afirmam que os refugiados em Colomancagua retornaram a El
Salvador a partir do início do ano 1989, como resultado da ação de organismos
internacionais e que muitos deles se reassentaram na comunidade de Segundo Montes. A
senhora Antonia Guevara Diaz contou que permaneceram em Colomancagua até o mês de
fevereiro de 1989, regressando ao povoado de San Luis com a ajuda da Cruz Vermelha,
para depois trasladar-se a Cerro Pando, “não tendo regressado em anos anteriores pela
situação do conflito armado interno, a insegurança que representava para ela e sua família,
pois eram acusados de ser parte da guerrilha nesse período; assegura que voltaram ao
lugar do qual haviam sido deslocados obrigatoriamente em função das garantias
proporcionadas pela Cruz Vermelha Internacional e porque a vida no refúgio era difícil, pois
sobreviviam com o que esta organização lhes dava, não tendo a facilidade de cultivar sua
própria alimentação”. 269 O senhor Juan Bautista Márquez Argueta relatou que, por gestões
de organismos humanitários como ACNUR e outras instituições, no mês de fevereiro de
1990, todos que se encontravam refugiados em Colomoncagua foram repatriados, levandoos sempre ao Departamento de Morazán, onde hoje se conhece como a Cidade de Segundo
Montes. Sobre sua situação pessoal, afirmou que “tratou de ir a ver os terrenos que tinha e
abandonou quando ocorreu o massacre, podendo identificá-los e pouco a pouco foi
arrumando-os para cultivá-los e deixando o lugar para onde havia sido levado, isso foi cerca
de um ano depois de ter chegado, podendo construir já uma casinha com melhores
materiais, no entanto hoje tem problemas, pois não possui documentos que amparem sua
propriedade, uma vez que as escrituras eram privadas e estas se perderam durante o
265
Entende-se por deslocados internos as pessoas ou grupos de pessoas que foram forçadas ou obrigadas a
escapar ou fugir de seu lar ou de seu lugar de residência habitual, em particular como resultado ou para evitar os
efeitos de um conflito armado, de situações de violência generalizada, de violações dos direitos humanos e que não
tenham cruzado uma fronteira estatal internacionalmente reconhecida. Cf. Princípios Reitores dos Deslocamentos
Internos das Nações Unidas, U.N. Doc. E/CN.4/1998/53/Add.2, 11 de fevereiro de 1998, par. 2.
266
A este respeito, ver a Declaração de Cartagena sobre Refugiados, adotada pelo “Colóquio Sobre a Proteção
Internacional dos Refugiados na América Central, México e Panamá: Problemas Jurídicos e Humanitários”,
celebrado em Cartagena, Colômbia, de 19 a 22 de novembro de 1984.
267
Cf. Caso Chitay Nech e outros Vs. Guatemala. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas.
Sentença de 25 de maio de 2010. Série C Nº 212, par. 149.
268
Cf. Caso Chitay Nech e outros Vs. Guatemala, par. 149.
269
Declaração prestada perante agente dotado de fé pública (affidavit) por Antonia Guevara Diaz em 1º de
abril de 2012 (expediente de prova, tomo XVII, affidavits, folha 10288).
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