9
14.
Os representantes alegaram que as violações denunciadas no presente caso se
referem aos desaparecimentos forçados das supostas vítimas; à impunidade que
decorre da falta de investigação, julgamento e punição dos responsáveis por esses
atos; bem como à ineficácia das medidas adotadas para respeitar, proteger e garantir
o direito à verdade e à informação. Destacaram que a possível data do início dos
desaparecimentos não restringe nem limita a competência ratione temporis do
Tribunal, uma vez que se trata de uma violação de caráter permanente e continuado.
Além disso, as alegadas violações relacionadas com os direitos à informação, à
verdade e à justiça persistem posteriormente à ratificação da Convenção Americana e
ao reconhecimento da jurisdição da Corte por parte do Estado. Por esse motivo, os
representantes solicitaram ao Tribunal que indefira essa exceção preliminar.
Salientaram, no entanto, que uma das pessoas desaparecidas foi identificada em 1996
e que, por conseguinte, a Corte carece de competência para pronunciar-se a respeito
de seu desaparecimento forçado.
2. Considerações da Corte
15.
A fim de determinar se tem ou não competência para conhecer de um caso ou
de um de seus aspectos, de acordo com o artigo 62.1 da Convenção Americana 20, a
Corte deve levar em consideração a data de reconhecimento da competência por parte
do Estado, os termos em que se deu esse reconhecimento e o princípio de
irretroatividade, disposto no artigo 28 da Convenção de Viena sobre o Direito dos
Tratados de 196921.
16.
O Brasil reconheceu a competência contenciosa da Corte Interamericana em 10
de dezembro de 1998 e, em sua declaração, indicou que o Tribunal teria competência
para os “fatos posteriores” a esse reconhecimento22. Com base no anteriormente
exposto e no princípio de irretroatividade, a Corte não pode exercer sua competência
contenciosa para aplicar a Convenção e declarar uma violação de suas normas quando
os fatos alegados ou a conduta do Estado, que pudesse implicar sua responsabilidade
internacional, sejam anteriores a esse reconhecimento da competência23. Por esse
motivo, fica excluída da competência do Tribunal a alegada execução extrajudicial da
senhora Maria Lúcia Petit da Silva, cujos restos mortais foram identificados em 1996,
20
O artigo 62.1 da Convenção estabelece:
Todo Estado Parte pode, no momento do depósito do seu instrumento de ratificação desta Convenção ou de
adesão a ela, ou em qualquer momento posterior, declarar que reconhece como obrigatória, de pleno direito
e sem convenção especial, a competência da Corte em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação
desta Convenção.
21
Essa norma estabelece que: “[a]s disposições [de um tratado] não obrigam uma parte em relação a
um ato ou fato anterior ou a uma situação que deixou de existir antes da entrada em vigor do tratado, em
relação a essa parte”.
22
O reconhecimento de competência feito pelo Brasil em 10 de dezembro de 1998 salienta que “[o]
Governo da República Federativa do Brasil declara que reconhece, por tempo indeterminado, como obrigatória
e de pleno direito, a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, em todos os casos
relacionados com a interpretação ou aplicação da Convenção Americana [sobre] Direitos Humanos, em
conformidade com o artigo 62 dessa mesma Convenção, sob reserva de reciprocidade e para fatos posteriores
a esta declaração". Cf. Informação geral sobre o Tratado: Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Brasil, reconhecimento de competência. Disponível em http://www.oas.org/juridico/spanish/firmas/b32.html; último acesso em 18 de novembro de 2010.
23
Cf. Caso das Irmãs Serrano Cruz versus El Salvador. Exceções Preliminares. Sentença de 23 de
novembro de 2004. Série C No. 118, par. 66; Caso Heliodoro Portugal versus Panamá. Exceções
Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 12 de agosto de 2008. Série C No. 186, par. 24, e
Caso Garibaldi supra nota 18, par. 20.