representa uma diferença tal que invalide todo o testemunho do senhor Quijano, especialmente quando ambas declarações coincidem no que é substancial e, mais importante, após serem considerados suspeitos de pertencerem ao grupo de guerrilheiros, foram interrogados insistentemente no segundo andar da Casa del Florero e, posteriormente, transferidos para o Cantão Norte. Ademais, a Corte considera que, ao examinar este tipo de testemunho, é necessário levar em consideração a situação especial de tensão, estresse ou outras circunstâncias que possam afetar o declarante. Neste sentido, destaca-se que o Protocolo de Istambul dispõe expressamente que, “em geral, observa-se que durante a tortura o indivíduo costuma sofrer uma desorientação temporal e espacial"575. 379. A Corte considera que está demonstrado que o senhor Quijano foi transferido para uma instalação militar no Cantão Norte, quando a retomada do Palácio da Justiça terminou, cerca de duas horas da tarde de 7 de novembro de 1985. Ademais, constata, com base nas provas no expediente, que o senhor Quijano foi enviado pelo B-2 da XIII Brigada para a 6ª Delegacia de Polícia, em 7 de novembro de 1985576. Portanto, para os efeitos da presente Sentença, a Corte considerará que o senhor Quijano permaneceu algumas horas no Cantão Norte, em vez de um dia ou um dia e meio, o que coincide também com o fato de que ele foi liberado em 8 de novembro de 1985 da 6ª Delegacia de Polícia, como consta do mandado de soltura emitida pela SIJIN nessa data577. 380. De outra parte, o Estado questionou as declarações do senhor Quijano quanto ao que o senhor Arrechea indicou sobre o tratamento ter sido “bom” ou “normal”578. Entretanto, este Tribunal observa duas coisas: em sua declaração de 1985, na qual o senhor Arrechea indicou que o tratamento foi “bom”, também indicou que o mantiveram detido por dois dias e que o interrogaram, no segundo andar da Casa del Florero, “fazendo acusações habituais; de que o haviam visto na tomada de Corinto, na Tomada de Florença e que ele era guerrilheiro”. Ademais, em sua declaração posterior, em 2007, expandiu sua descrição dos fatos e agregou expressamente que na Casa del Florero “mantiveram-nos com as mãos sobre a cabeça [...] e contra a parede” e quando a Promotoria perguntou sobre o tratamento recebido, indicou que “apesar da pressão psicológica a que foi submetido várias vezes por alguns membros, acreditava que, dentro do normal, o tratamento foi bom apesar da pressão psicológica. Acreditava que o tratamento foi normal, se é que se pode qualificá-lo dessa forma”579. Além disso, a Corte ressalta 575 A este respeito, o Protocolo de Istambul estabelece especificamente que “o investigador deverá levar em consideração que tudo quanto a vítima diz acerca da duração da sessão de tortura é subjetivo e pode não estar correto, uma vez que tem se observado que a tortura o indivíduo, em geral, perde a noção do tempo e do espaço”. Organização das Nações Unidas, Protocolo de Istambul, Manual para a investigação e documentação eficazes da tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes de 2004, par. 141. 576 A respeito, consta do expediente um ofício do B-2 indicando: “tendo em vista as orientações pertinentes para a identificação e para os procedimentos legais, com o presente envio a esse comando as seguintes pessoas que estavam nas imediações do Palácio da Justiça, em atitude suspeita, durante a ocupação do M-19 nessas instalações, em [6 de novembro de 1985,] a saber: [...] Quijano Orlando". Cf. Forças Militares da Colômbia, Ofício n° 06040-COBR13-B2-267 (expediente de prova, fl. 20.169). 577 Cf. SIJIN, Mandado de soltura, de 8 de novembro de 1985 (expediente de prova, fl. 20.171). 578 O Estado também se referiu a duas pessoas adicionais, Patricio Torroledo e Saúl Antonio Arce, que também foram presas e supostamente teriam afirmado que o tratamento foi "bom" ou "normal". A Corte assinala que a Colômbia não forneceu tais declarações ao expediente, e, portanto, não é possível verificar as alegações. Estas declarações são citadas na Sentença do Tribunal Superior de Bogotá e no voto dissidente respectivo (de onde o Estado extrai sua alegação), sendo que, neste último, foram transcritos alguns extratos onde aparece que o senhor Torroledo teria indicado que o tratamento foi "bom", embora também afirme que o mantiveram com as mãos contra a parede na Casa del Florero. Sem prejuízo do exposto, a Corte considera que as afirmações realizadas a respeito da qualificação dada ao tratamento por Orlando Arrechea também se aplicariam às supostas declarações destas pessoas. 579 Declaração de Orlando Arrechea de 18 de julho de 2007 perante a Promotoria (expediente de prova, fl. 15.218); e Declaração de Orlando Arrechea, de 28 de novembro de 1985, perante a Comissão Especial (expediente de prova, fls. 1.221 e 1.223).

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