47.
Do mesmo modo, determinou-se que uma série de atos podem levar à criação de
uma situação continuada. Assim, por exemplo, no caso McFeely e outros Vs. Reino Unido a
extinta Comissão Europeia dos Direitos do Homem determinou que diferentes atos
relacionados às condições de detenção podem resultar em um “estado permanente de
continuidade”. A partir deste precedente, o Tribunal Europeu, no caso Agrotexim e outros Vs.
Grécia, determinou que diferentes atos do Conselho Municipal de Atenas poderiam ser
considerados como uma série de etapas que conformavam uma situação continuada.
48.
No caso Phocas Vs. França, o Tribunal Europeu examinou um caso em que o
peticionário alegava uma situação continuada, à luz de um processo de expropriação que
durou de 31 de julho de 1965 a 22 de janeiro de 198280. Esta continuidade nos processos de
expropriação também foi analisada pelo Tribunal Europeu nos casos Cviject Vs. Croácia81 e
Crnojevic Vs. Croácia82.
49.
No Sistema Interamericano, esta Corte, no Caso da Comunidade Moiwana Vs.
Suriname, reconheceu a existência de efeitos continuados a partir de diversas violações aos
direitos humanos. Conforme comentado na presente Sentença83, o caso tratou dos membros
de uma comunidade tribal que teve que se deslocar forçadamente de seus territórios, sem
poder regressar a estes pela violência que ainda persistia. Nesse caso, a Corte assinalou que,
embora os fatos do deslocamento forçado tivessem ocorrido antes do reconhecimento da
competência contenciosa do Tribunal, “a impossibilidade do retorno a estas terras
supostamente subsistiu” motivo pelo qual a Corte “tem, também, jurisdição para decidir
sobre estes supostos fatos e sobre a sua qualificação jurídica correspondente”84. Outrossim,
a Corte considerou que esse caso se referia a uma situação de deslocamento forçado de uma
comunidade tribal em que esta comunidade não havia sido reassentada em terras alternativas,
sob uma situação de violência e insegurança sobre a qual o Estado foi declarado responsável.
Nesse caso, a Corte declarou a violação do direito de circulação e de residência, contido no
artigo 22 da Convenção, e, como resultado, também declarou uma violação ao direito à
propriedade, contido no artigo 21 do mesmo instrumento, pois a situação de violência privoulhes do uso e gozo comunal de sua propriedade tradicional.
50.
O ponto medular para determinar se um ato constitutivo de violações de direitos
pode ser classificado como continuado ou não, consiste em determinar, segundo o
estabelecido pelo Comitê de Direitos Humanos, se tais violações continuam ou têm efeitos
que per se constituem violações85. Assim, por exemplo, nos casos analisados anteriormente o
prejuízo ao direito à propriedade privada dos peticionários deu-se de maneira continuada, pois
não haviam perdido, legalmente, seus direitos como proprietários ou, no caso, como
beneficiários de uma
80
TEDH, Phocas Vs. França, n° 17.869/91, par. 45-49, 23 de abril de 1996.
TEDH, Cvijetic Vs. Croácia, n° 71.549/01 (dez.), 3 de abril de 2003.
82 TEDH, Crnojevic v. Croácia, n° 71.614/01 (dez.), 29 de abril de
2003. 83 Pars. 34 e 35 da Sentença.
84
Cf. Caso da Comunidade Moiwana Vs. Suriname. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença 15 de junho de
2005. Série C n° 124, pars. 43 e 108.
85 Comitê de Direitos Humanos, Comunicação n° 24/1977, Lovelace Vs. Canadá, Parecer aprovado em 30 de julho de 1981, par.
7.3; Comitê de Direitos Humanos n° 1.367/2005, Anderson Vs. Austrália, Decisão de Admissibilidade adotada em 31 de outubro de
2006, par. 7.3. Comitê de Direitos Humanos, Comunicação n° 1.424/2005, Armand Anton Vs. Argélia, Decisão de Admissibilidade
adotada em 1° de novembro de 2004, par. 8.3.
81
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