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deslocar de sua comunidade naquelas ocasiões em que deveriam realizar diligências
relacionadas com a busca de justiça no caso. Consequentemente, tiveram de deixar seus
filhos sozinhos em casa, o que gerava nas crianças um profundo medo, em especial pela
presença de militares na região. 132 Desse modo, os fatos do caso e a busca de justiça
geraram mudanças significativas e prejudiciais na vida familiar, que afetaram de maneira
especial os filhos, que têm experimentado um profundo sofrimento durante todos esses
anos. 133
147. Adicionalmente, em relação à jovem Noemí Prisciliano Fernández, ela teve de se
apresentar às autoridades para prestar depoimento sobre os fatos. 134 Assim o constatou a
perícia da senhora Correa González, ao indicar que o fato de ter tido que depor perante
instâncias públicas, com pouca idade, “lhe gerou uma vitimização secundária devido a que
recordou[,] em presença de autoridades governamentais[,] o que aconteceu à sua mãe,
causando-lhe muito temor [e raiva], sensação que permaneceu por muito tempo”. 135
148. A perita Correa González afirmou que “o clima emocional da família […] tem estado
permeado pelo medo. Observa-se a impossibilidade de falar da emoção que os afeta, têm
temor de recordar o que ficou em silêncio por tanto tempo, de não saber o que dizer e de
não saber o que fazer. Este sentimento de estar em permanente risco tem feito com que
132
Noemí Prisciliano Fernández declarou: “eu ficava sozinh[a] com meus irmãos e me dava muito medo,
porque ficava pensando que os [militares] viriam outra vez”, declaração prestada perante agente dotado de fé
pública por Noemí Prisciliano Fernández, nota 68 supra, folha 1494. Além disso, o senhor Prisciliano Sierra
manifestou: “cada [vez] que íamos a Ayutla tínhamos que deixar sozinhos nossos filhos com medo de que lhes
acontecesse algo”, declaração prestada perante agente dotado de fé pública pelo senhor Prisciliano Sierra, nota 66
supra, folha 1502. Por sua vez, a senhora Fernández Ortega declarou: “[c]ada vez que íamos a Ayutla eram muitos
problemas, porque meus filhos ficavam sozinhos, e me dava medo […] que chegassem mais [militares] e lhes
fizessem algo”, declaração prestada perante agente dotado de fé pública pela senhora Fernández Ortega, nota 62
supra, folha 1486.
133
A senhora Fernández Ortega declarou: “[nossos filhos] também sofreram muito pelo que nos aconteceu,
principalmente os que viram como os soldados começaram a abusar de mim. Já mandamos Noemí e Ana Luz para
Ayutla, porque em Barranca Tecoani lhes pode acontecer algo. Como elas viram tudo, eu vejo que sofrem muito e
que se recordam do que aconteceu, porque elas têm medo dos [militares]. Os mais pequeno[s] também sofrem.
Colosio e Nélida eram muito pequenos quando aconteceu tudo, mas percebem como temos tido problemas e não
vão bem na escola. Até Neftalí, que não havia nascido quando vieram os [militares], vejo que tem medo e que não
se desgruda de mim”, declaração prestada perante agente dotado de fé pública pela senhora Fernández Ortega,
nota 62 supra, folha 1488. Noemí Prisciliano Fernández declarou: “às vezes eu e meus irmãos ficávamos sozinhos e
não havia nada para comer, porque o pouco dinheiro usavam para sair a pedir justiça. Depois, quando meu pai e
minha mãe voltavam, às vezes via que discutiam muito pelo que havia acontecido e se desesperavam. Foi muito
difícil tudo isso. Eu às vezes somente ficava calada ou me despertava à noite chorando e com medo. Eu penso que
depois do que aconteceu tudo mudou para nós […]me sinto irritada ou com medo […] agora já falo espanhol e tive
que vir a Ayutla para estudar e volto para minha casa […] sempre, mas de qualquer forma sinto medo quando
ando sozinha ou quando vejo os [militares]. E agora que sou mais velha vejo que também meu pai, minha mãe e
meus irmãos também andam com medo. Antes […] todos vivíamos bem, mas depois tudo mudou, meus irmãos
estão muito tristes na escola, as outras crianças riem de nós […], meus irmãos pequenos quase não se juntam
nem brincam com outras crianças, meu irmão Colosio que agora já está mais velho até tem brigado com outras
crianças pelo que dizem de minha mãe”, declaração prestada perante agente dotado de fé pública por Noemí
Prisciliano Fernández, nota 68 supra, folha 1495. Por sua vez, o senhor Prisciliano Sierra manifestou: “[d]epois,
quando minha filha Noemí terminou o primário, foi estudar sua educação secundária na cidade de Ayutla, porque
sentíamos que era perigoso que lhe pudesse acontecer algo, e o mesmo fizemos com Ana Luz”, declaração
prestada perante agente dotado de fé pública pelo senhor Prisciliano Sierra, nota 66 supra, folha 1503.
134
Noemí Prisciliano Fernández declarou: “estava muito nervosa, porque nesse momento quase não falava
nada de espanhol. Tudo isso foi muito difícil, porque ninguém mais nos ajudava e não acreditavam no que nos
havia acontecido e nos tratavam mal por não falar espanhol”, declaração prestada perante agente dotado de fé
pública por Noemí Prisciliano Fernández, nota 68 supra, folha 1494.
135
Perícia psicossocial realizada pela senhora Correa González, nota 113 supra, folha 1618.
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